Uma imagem misteriosa

Pouco antes da Biblioteca Pública Municipal do Porto fechar portas para a sua total remodelação, que a obrigará a estar por mais de cinco anos encerrada, era o meu passatempo preferido ali me deslocar, aos sábados de manhã, na procura de velharias, antiguidades, "ineditidades" nos jornais antigos do Porto. Numa dessas rusgas acabei por encontrar, num pouco conhecido - e de curta vida -- periódico do início do século XX chamado O Porto, uma ou outra imagem surpreendente. A imagem que aqui apresento, levou-me pouco tempo a identificar com acuidade, embora já a tivesse desde 2022. A verdade é que só na última semana "me virei" para ela, com mais atenção.

Foi relativamente fácil chegar à conclusão a que cheguei, e que creio o leitor me acompanhará, pese embora não exista(?) qualquer outra imagem deste ângulo. Não nos deve surpreender. São ruas de pouca história. Não existiram durante muito tempo. A espinha dorsal de todos estes arruamentos, a Rua do Almada, datava do meado do século XVIII; pouco para uma cidade "fundada" em 1123(1).

A Travessa da Fábrica, num apontamento inédito(?) dela. Ao fundo, e tal como ainda hoje para quem vê do início da Rua de Avis, temos a Rua da Picaria, que sobe em ligeiro ângulo (embora a fraca qualidade da imagem não o deixe perceber).


Bem, na legenda já adiantei o segredo... agora fundamento como lá cheguei: esta fotografia surge na edição de 22 de setembro de 1911 do jornal acima referido e tem como título A Carestia da Vida. Triste título... mas falar sobre esses tempos de desespero deixarei para outrem, que o fará de certeza bem melhor do que eu! A legenda da imagem é Venda do azeite na CASA FAVORITA (Castanheira e Fonseca).(2)

Ora foi por aqui que comecei. Procurando no motor de busca do Arquivo Municipal do Porto, pude encontrar, seguindo o nome da sociedade, um pedido de licenciamento de alteração de um edifício com frente para a Rua da Fábrica e Travessa da Fábrica (aqui); de janeiro do mesmo ano em que o cliché foi captado. Ainda sem qualquer ideia de que edifício ao certo seria, mas tendo conhecimento da existência e demolição da Casa da Fábrica, tendo as suas pedras andando em bolandas até se perderem de vez; procurei por esta via, e pela primeira vez, saber o local exato onde este casarão imperara. E ela existiu, alguns leitores já o saberão, na esquina entra a Rua da Fábrica e a Travessa da Fábrica (hoje denominada Rua de Avis).

Pormenor de uma das cartas de Teles Ferreira, onde o CF assinala a Casa da Fábrica e a seta a orientação da fotografia.


Procurando elementos na imagem que ajudassem a esclarecer o mistério, foi olhando para outras já conhecidas do edifício e do próprio arruamento, tendo chegado àquela conclusão. Também com a ajuda da carta topotgráfica de Teles Ferreira e sua equipa, que nos mostra o Porto tal como ele era na última década do século XIX. Em caso de o leitor ainda não se ter apercebido, a imagem abaixo pretende ilustrar a forma como deduzi que o edifício que se vê em ângulo, imediatamente à frente do fotógrafo, é a própria Casa da Fábrica; assinalando os pormenores que me serviram como "meio de prova".


Repare-se que na fotografia agora trazida a público, a rua se reduz a metade da largura umas dezenas de metros depois do seu início. Vendo-se do outro ângulo percebe-se porquê, e a fotografia abaixo, já conhecida, mostra o seu afunilamento, imediatamente antes de encontrar a Rua da Picaria e a Travessa da Picaria.

A mesma rua da imagem inédita, vista da sua outra entrada. O X assinala a Casa da Fábrica e o círculo a janela de onde presumo ter sido tirada a foto (ver aqui o edifício, que ainda existe). Atrás do fotografo está a Rua da Picaria, e ao lado esquerdo a Travessa da Picaria, que terminava na Rua do Almada, em frente à garagem d' O Comércio do Porto.


Espero, caro leitor, apesar da parca qualidade da imagem, ter contribuído de alguma forma para o conhecimento de um arruamento já desaparecido(3) da cidade. Um arruamento sem grande história, é verdade, mas que desta forma podemos subtrair ao semiesquecimento que a muito útil carta de Teles Ferreira lhe dava, onde os edifícios não são mais do que retângulos cor-de-rosa.

Hoje mesmo, numa breve conversa com o Sr. Miguel, proprietário da livraria alfarrabista Moreira da Costa, fiquei a saber que aquele estabelecimento ainda esteve, nos seus primeiros tempos, nos baixos da Casa da Fábrica. E segundo ele, o ponto exato em que se localizava era, por acasos do destino, quase exatamente o mesmo onde se encontra agora, embora o edifício seja uma nova construção.

Resta referir que os edifícios da sociedade Castanheira & Fonseca correspondem, na fotografia, ao lado esquerdo da rua, fazendo frente para a célebre, porém condenada, Casa da Fábrica. Esta firma tinha a sua fachada principal virada à Rua da Fábrica, e como se pode verificar nesta foto, a moldura da loja coincide com o projeto de janeiro de 1911.

Viriato


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1. Data do foral outorgado pelo bispo D. Hugo ao seu burgo, que utilizo de forma simbólica.

2. Diz mais que o cliché é da Photo-Bazar Limitada.

3. Mais ou menos... a rua está lá. Tem outro nome, é mais larga e o edificado é completamente diferente.

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