Uma outra 'Ponte das Barcas'

A ponte de barcas, inaugurada em 1806, foi a primeira estrutura de caráter permanente sobre a qual quem demandasse as margens do Douro, podia atravessar. Refém do clima, a sua permanência era por isso relativa. Ainda assim, o certo é que esta ponte foi a ligação possível entre Porto e Vila Nova de Gaia durante quase quatro décadas. Mas quantos saberão que aquela não é a estrutura mais antiga de que há registo sobre o Douro junto ao Porto?


Pois, desta vez, recuamos ao já longínquo século XIV, para visitarmos a nossa cidade numa época em que a sua muralha mais famosa, dita fernandina, não estava concluída. E é precisamente no reinado de D. Fernando que vamos parar a nossa máquina do tempo imaginária.

Estamos no ano de 1369, Fernando governa o destino de Portugal há quase dois anos e recentemente envolveu-se numa questão que apenas lhe trará dissabores. Com efeito, com a morte do rei de Castela, Pedro I — o Cruel — o seu irmão bastardo, Henrique de Trastâmara, declara-se pretendente ao trono. Ora, D. Fernando — e outros — achavam-se igualmente no direito a ele. De tal forma as coisas evoluíram, que se acabou por criar um estado de guerra entre o nosso rei e o pretendente castelão (1).

Num desses episódios, Henrique de Trastâmara pôs cerco a Guimarães e D. Fernando, que se encontrava em Coimbra, decidiu vir a seu encontro para o defrontar ou demover. De permeio, o exército do rei teria de passar o Douro, rio bastante fragoso e de corrente violenta (2). Acontece que, para o transpor, o rei deu ordens muito específicas aos portuenses, que ficaram registadas na crónica dele escrita por Fernão Lopes:

E mandou logo suas cartas à cidade do Porto, que muito à pressa fosse feita uma ponte de barcas no rio do Douro, por que ele e toda sua hoste pudessem passar em um dia, por quanto sua vontade era em toda guisa ir pelejar com el-rei D. Henrique; e que isso mesmo se fizessem prestes os moradores do lugar para se irem em sua companha. Os da cidade mui ledos com este recado, foram todos postos em grande trigança para por isto em obra, uns a chegar barcas, deles a carretar madeira, outros a lançar âncoras e amarrar cabres; de guisa que muito aginha foi feito uma grande e espaçosa ponte, lastrada de terra e de areia, tal por que folgadamente podiam ir através seis homens a cavalo: e isto feito, fizeram-se prestes todos os homens de armas, e de pé, e besteiros com a bandeira da cidade, para irem em companha de el-rei à batalha. Partiu el-rei D. Fernando de Coimbra com todas suas gentes, e dizem que chegou até o Porto...


Assim constatamos que, de um singelo parágrafo perdido numa crónica, podemos extrair, como se de arqueologia documental se tratasse, a referência escrita mais antiga a uma ponte sobre o Douro que ainda que por apenas um dia, uniu a margem de Vila Nova com a da Ribeira (ou Miragaia). Consegue o leitor imaginar a hoste de D. Fernando — cavaleiros, besteiros e pionagem — alinhada no areal onde agora temos o Cais de Gaia, enfileirada a aguardar a sua vez de passar? Só podemos, é claro, criar uma imagem mental. Ainda assim, que imponente visão do passado essa!

Viriato


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1. A palavra original em português, por evolução fonética, do atual termo castelhano.

2. Disso mesmo se lembrará o leitor que ainda tenha assistido a alguma das cheias invernais, fenómeno que a construção das barragens praticamente extinguiu.

Publicada originalmente a 21-10-2019 n'A Porta Nobre.

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