sábado, 8 de junho de 2024

O Breve papal e a concórdia com o bispo

Voltamos agora ao tópico convento de S. Domingos; um dos temas a que mais dediquei. Quando Frei Luís de Sousa/Cacegas refere na sua Crónica... o breve papal enviado ao arcebispo de Braga para que este fosse juiz na contenda entre o bispado do Porto e os Pregadores, o autor discorre após a apresentação da missiva, escrevendo o seguinte:

página 156v da primeira edição da crónica de Fr. Luís de Sousa


Era no meu entender facto consumado que toda esta página seria liberdade literária do autor, ainda que escrita com ponderação tendo sempre em conta a provável realidade histórica. E se ainda guardo esse pensamento quanto às suas últimas linhas, não posso, à luz de um documento depositado na Torre do Tombo proveniente do cartório do convento, julgar o mesmo em relação às questões referidas com o bispado portuense[1]. Com efeito, este documento quase desconhecido originário da chancelaria da Sé de Braga, mostra-nos a execução do breve e a resposta do cabido portuense[2], incluindo o acordo obtido com os Pregadores; esta última com relevância e portanto merecedora de ser transcrita que nos confirma as palavras do cronista, acrescentando-lhes pormenor. Mas antes dessa parte do documento, permitam-me que transcreva o breve de Gregório IX, na tentativa de divulgar o diploma original onde todos os autores foram direta ou indiretamente recolher informação (dividi-o em partes por forma a simplificar a sua compreensão):


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1. Apresentação:

«Gregorius episcopus servus servorum Dei . Venerabili fratri . Archiepiscopo et dilectis filiis . Decanum et . Cantori Bracharensibus . Salutem et Apostolicam benedictionem .

2. Razão do breve:

Olim venerabilem fratrem nostrum . Episcopum portugallensem illus esse credebamus industriæ ut perempnis obtentu gloriæ libenter efficeret per quæ Deo et hominibus complaceret . sed cogimur opinari contrarium illis in conspectu nostro clamantibus quos sine causa persequitur non absque : contumelia redemptoris .

3. A aceitação dos dominicanos por parte do bispo e cabido:

Sane Dilectorum filiorum fratrum de ordine prædicatorum Portugallensium insinuatione percepimus quod idem Episcopus aliquando pie cogitans eorum studiis animarum procurari salutem et ampliationem catholicæ puritatis eis Portugalliam ad suam vocem [i. é, do bispo e seus cónegos] intrantibus locum ipsis pro ecclesia fundanda concessum de sui assensu capituli liberaliter assignavit . ponens ibidem lapidem primarium et suæ partem hæreditatis adhiciens ut inchoatum ædificium posset magis effici spatiosum . cunctis loci eiusdem per eum nihilomimus facta certa remissione peccaminum qui ad hoc ipsis præstarent subsidium oportunum .

4. A sua súbita passagem de benfeitores a malfeitores:

Verum cum dicti fratres locum ipsum pacifice possidentes et ibidem de sua licencia divina libere celebrantes pro huiusmodi perfectione operis graves labores subierint et expensas ipse subito de parte commutatus in hostem eos exinde una cum suis canonicis amovere nititur multis ex hoc ac eisdem fratribus in gravi scandalo constitutis . præsertim cum idem ipsis contra indulgencias eis ab apostolica sede concessas ne prædicent seu confessiones audiant vel divina celebrent duxerit inhibendum . lata in omnes interdicti sententia qui eis ad huiusmodi perfectionem operis consilium vel auxilium largiuntur .

5. O 'puxão de orelhas' do papa:

Cum igitur prorsus indecens et detestabile videatur ut idem episcopus habeatur de tanta varietate notabilis et persecutor deum timentium reputetur eundem rogamus et hortamur attente nostris sibi districte in virtute obedienciæ dantes literis in præceptis ut fratres eosdem præfati loci possessione pacifica sine præiuditio iuris sui et eciam alieni pro divina et nostra reverencia gaudere permittat . latam per ipsum in benefactores eorum interdicti sententiam infra octo dies post susceptionem earum sine qualib; difficultate relaxans .

6. O papa entrega ao arcebispo, deão e chantre de Braga o poder de fazer valer a sua vontade:

Quocirca discretioni vestræ per apostolica scripta mandamus . quatinus si dictus Episcopus præceptum nostrum infra præscriptum tempus neglexerit adimplere vos extunc relaxantes eandem et si similem in ipsos decætero ferre præsumpserit eam tanquam contra inhibitionem sedis apostolicæ promulgatam nullam esse penitus decernentes fratres ipsos super eiusdem possessione loci ac eos et benefactores suos super construendis ibidem ædificiis eorundem fratrum usibus oportunis non permittatis ab aliquo indebite molestari . Molestatores huiusmodi authoritate nostra appellatione postposita compescendo . Quod si non omnes hiis exequendis potueritis interesse : tu frater archiepiscope cum eorum altero ea nihilominus exequaris .

7. Datação do documento:

Datum Anagniæ. VIII . Kalendas . Octobrum . Pontificatus nostri anno duodecimo»[3]


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Após este breve, o documento informa precisamente o que Fr. Luís de Sousa referiu na página da sua crónica que podem ler mais acima. Entre indas e vindas de procuradores do bispo e cabido e frades pregadores, lá foi possível chegar a uma concórdia para a continuação do convento (mas como bem refere a Crónica..., com importantes restrições aos seus rendimentos). A parte do documento que abaixo apresento creio ser totalmente inédita: mostra-nos o teor da missiva do bispo do Porto ao arcebispo de Braga dando-lhe notícia desse convénio e pedindo a sua aprovação. Ela é importante por esse mesmo facto, mas também por nos dar uma ideia de como se encontrava a construção do convento, mencionando mesmo os doadores dos terrenos a ele pertencentes.


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Concórdia entre o clero portucalense e os frades do convento dominicano do Porto

«P. dei paciencia portugalensum Episcopo . Dilectis suis . decano et magistroscolarum .P. petrus Canonicis portugalensem .M. et .E. archidiachonis Bracarensem salut in vero salutari . Noueritis quod si uobis uidetur et placet admitter condictones quas eclesie portugalensem et novis predicatores faciunt . Novis placet . ita tamen quod per priorem prouincialem certos nos faciant de non habenda apud nos sepultura et quod oblatones et decimas non accipiant . nec alias molesti sint nobis in uiribus eclesie portugalensem . et si forte omnis compositioni cum predictis fratribus faciende non poteruitis interesse : quod a maiori parte verum factum fuerit : robur obtineat firmitatis . auctoritate quid istam litteram et potestate dicti Episcopo qua fungimos in hac parte . de unanimi consensu capituli portugalensem amicabilit cum eisdem fratibus composuimos . Concedentes eis et confirmantes totum locum qui fuit Joahnis Ferrarij . Et Domenici Stephani dicti Karrepho . Et particulas quas eis adiecerunt dominos Episcopos Petrus . et dominus Julianos . et fratres euis .J. plurij canonici portugalensem . Cum omnibus suis uiribus et pertinencijs. ut ipsam locum predicti fratres pacifice et sine omni inquietudine decetero possideant . et construendj penes nos domos et ecclesiam secundum sui ordinis exigenciam et si qua sunt alia eorum usibus oportuna . sine omni contraditione plenam habeant facultatem . Nulli qui liceat hanc confirmationem et concessionem nostram infringere : nec fratres ibidem morantes . Indebite decetero molestare. Et ut hec nostra concesso et compositio firma et inuiolabilis in perpetuum permaneat . presentem paginam sigillorum nostrum et Capitoli portugalensem appositione fecimus roborarj»[4]


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Assim e pela leitura desta carta constatamos precisamente o que na Crónica... se refere, i. é: o bispo e o cabido do Porto estavam bem mais preocupados com as oblações e dízimos que a população começava a entregar cada vez mais aos frades e mesmo pedindo-se para sepultar junto deles (embora talvez não dentro da igreja...) do que propriamente com a presença física dos padres do convento que pelo bispado saiam em pregação. Por isso, e tendo em mente este acordo, confirmaram que os frades eram os detentores dos terrenos que antes haviam sido de João Ferreira e de Domingos Esteves bem como dos que a própria Sé portuense doara; terrenos onde estariam certamente quer algumas dependências do convento quer os primeiros retalhos da futura cerca.

Irão com certeza desculpar-me os historiadores profissionais por esta minha interpretação: mas não posso deixar de ver nas linhas deste pergaminho, sobretudo na concórdia, a verdadeira carta de fundação do convento de S. Domingos do Porto; pois é neste documento que é explicitamente referida a permissão de construir entre nós casas e igreja segundo as exigências da sua Ordem. Isto claro está, se estivessem dispostos a obedecer aos preceitos do acordo...

Viriato


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1. Terão sido sem dúvida os apontamentos de fr. Luís Cacegas («um monte de cousas indigestas, e informes» no dizer de Fr. Luís de Sousa) que serviram para este último erguer a sua monumental Crónica..., apontamentos esses onde constariam certamente as notas tomadas do documento de que trata esta publicação.

2. O documento inicia deste modo: «Scuissimo patri ac domino .G. divina providencia sacrosancte romane eclesiæ summo pontifici .S. dei permissione archiepiscopum .M. Decanus et .J. cantor Bracarensis : terram coram beatissimis pedibus osculari . fratres predicatores in portugalia constituti obtinuerunt ad nos rescriptum apostolicum sub hac forma». G será abreviatura do nome do papa Gregório (IX), e S o do arcebispo de Braga (Silvestre); M e J serão abreviaturas dos nomes do deão e chantre de Braga, respetivamente. A seguir a esta frase inicia o breve papal.

3. Setembro de 1238.

4. Importa mais uma vez referir que estes documentos se encontram inseridos num único pergaminho (sentença) provinda da chancelaria episcopal de Braga; e que este se encontra datado de «Datam Bracaram mense Junij tercio die anno festum Petri et Pauli. Sub E.M.cc.lxx.vij.» (3 de junho de 1239).

Bibliografia: pergaminho do antigo cartório do convento (TT); Primeira parte da história de S. Domingos (Fr. Luís de Cacegas e Fr. Luís de Sousa Sousa)

NOTA: originalmente publicado a 28 de maio de 2019

terça-feira, 7 de maio de 2024

Padecimentos

Desta vez retomo as publicações sobre o convento de S. Domingos do Porto já elaboradas anteriormente, que se encontravam alojadas no seu antigo e específico blog.

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Instalados que estavam os frades de S. Domingos junto do pequeno burgo do Porto e iniciadas as obras de construção/adaptação das casas e igreja cedidas pelo bispo, seria de esperar que esta nova casa florescesse no ministério para a qual se criara. Contudo cedo, muito cedo, ainda durante aquele ano, foram os frades envolvidos em querelas com o clero local tal como os franciscanos que já sofriam a ira daqueles prelados desde pelo menos o ano anterior(1). Quer para uma quer para a outra ordem mendicante serve bem as explicações que frei Manuel da Esperança e frei Luís de Cacegas/Sousa dão nas suas respetivas crónicas. No entanto opto aqui pelas palavras do dominicano do séc. XVIII que escreveu o livro de Foral do seu convento:

Pelos anos de 1238 pouco mais, ou menos vendo o cabido desta cidade, a muita devoção, que os moradores dela, que naquele tempo eram todos fregueses da Sé, tinham aos religiosos deste convento, de sorte, que desamparando a sua paroquial todos se queriam sepultar no nosso convento concorrendo a esta igreja com suas obradas e esmolas, e que estes interesses lhes faltavam lá na sua catedral, começaram a inquietar os religiosos com tanta paixão, que fazendo grandes queixas ao bispo D. Pedro Salvador, este insuflado pelo cabido começou a proceder contra os religiosos com tanta tirania, que logo lhes proíbiu o pregar, e confessar, e dizerem missa, embargando-lhes as obras da igreja, e convento, pondo excomunhão a todos os que trabalhassem nelas, revogando todas as doações feitas ao convento, anulando também todas as compras, que os religiosos tinham pago metendo-se de posse de algumas propriedades, que já possuía o convento, enfim buscando todos os meios com que mais molestasse aos religiosos até que desesperados deixassem esta cidade, e todo o seu bispado, querendo assim lançar fora de si, e seu bispado aos mesmos, que com tanto zelo, e instância tão honradamente chamou para a sua companhia...

Ainda em 1238 os dominicanos remetem uma missiva para Roma, dando conhecimento da situação e pedindo expedita resolução. Gregório IX reagiu enviando um breve ao arcebispo, deão e chantre da arquidiocese de Braga para que, como mediador, colocasse um ponto final na situação. Apenas quando este fez ver a D. Pedro Salvadores que teria de fazer o que o Papa ordenava é que foram enviados junto dele os seus representantes, alcançando-se finalmente um acordo(2).


Mas também o rei D. Sancho II quis ajudar os frades. Em janeiro de 1239 passou um documento onde refere que mandava fazer o convento em prol da sua alma, recebendo-o por isso debaixo do seu amparo, onde estipulava igualmente as sanções a quem de alguma forma prejudicasse os frades e/ou os seus criados/operários. Este diploma, estou em crer, insere-se na intensa disputa existente entre a Mitra e a Coroa sobre qual era o verdadeiro término do couto que D. Teresa doara ao Bispo do Porto em 1120. Disputa essa que, se adormecida durante o reinado de D. Afonso II, não estava de todo extinta, pelo contrário, vai-se prolongar bem para lá da época que aqui nos interessa! É que, quer franciscanos, quer dominicanos, pretendiam instalar-se (como efetivamente aconteceu) numa área entre o rio da Vila e o rio Frio, terreno disputado por ambos os poderes(3).



A travessa da Bainharia é o único resquício que nos ficou da rua da ponte de S. Domingos, que remontava ao início do século XVI. Atravessando essa mesma ponte (sensivelmente onde na foto se vê o tuktuk), subia-se a ladeira chegando no seu topo ao convento dominicano. No século XIII, este caminho para Miragaia, ainda uma rural azinhaga, fez com toda a certeza parte do calvário dominicano de indas e vindas à Sé, na tentativa de solucionar os problemas que o seu suposto protetor lhes havia criado...


Mas foi a doação da rainha D. Mafalda(4) em junho de 1239 de uma importante igreja que lhe pertencia, que fez com que o senhor do Porto acalmasse os ânimos em relação aos dominicanos. Com essa doação - igreja de Santa Cruz de Riba Leça, hoje de Santa Cruz do Bispo - vieram todas as suas posses e rendimentos. O motivo é precisamente «in recompensationem graviminis, si in aliquo ex praedicatorum Fratrum commorantione Ecclesia Portugallensis fuerit aggravata»; ou seja, para que o bispo e restantes cúria episcopal não ficassem sem os seus rendimentos garantidos(5).


Depois de sanadas as divergências que acima resumi, poderemos dizer que em 1241 se aquietaram finalmente os frades no sítio que o bispo lhes cedera. Quanto a D. Pedro Salvadores, ainda que tenha passado à história como perseguidor quer dos dominicanos quer sobretudo dos franciscanos; é notável que tivesse, em testamento, nomeado para executor das suas últimas vontades o prior dos Pregadores e fr. Gualter (franciscano?). Este prelado morreu em 1247, não sem dois anos antes ter feito doação ao convento de duas fontes suas que nasciam nas hortas da Cividade (onde mais tarde foi erguido o convento de S. Bento das Freiras e depois a estação de S. Bento), conforme descreve o frade anónimo do livro do Foral de 1728:

...no ano de 1245 também nos deu duas fontes das quais uma nasce nas hortas, que hoje são das freiras de S. Bento ... que chamam da Samaritana, e a outra nasce de baixo do coro das ditas religiosas, da qual temos a área entre o primeiro, e segundo botaréu, que está da sua portaria até às escadas da entrada da igreja, cuja doação nos confirmou o Sr. bispo D. Vicente seu sucessor, no ano de 1293...

E agora sim, na próxima publicação vamos embrenhar-nos no latim medieval dos contratos notariais! Prometo que será apresentado em "doses" suaves(6).

Viriato


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1. As primeiras bulas de censura enviadas pelo papa Gregório IX - uma ao Bispo a outra ao Cabido - datam de 25 de maio e 23 de junho de 1237 respetivamente. Embora a primeira carta que o mesmo papa enviara ao bispo do Porto D. Martinho Rodrigues(†1235) datasse de 20 de maio de 1233, não é certo que os franciscanos se tenham instalado logo nesse ano.

2. Provavelmente estes desenvolvimentos deram-se já em 1239, não obstante o Breve papal datar de setembro de 1238.

3. Corresponde aproximadamente ao terreno compreendido entre a rua Mouzinho da Silveira e a igreja de S. Pedro de Miragaia. O rio da Vila formava-se de dois pequenos riachos que se uniam em frente aos Congregados e rio Frio nasce no Carregal, vindo ao Douro pelo vale das Virtudes.

4. D. Mafalda, filha de D. Sancho I e tia de D. Sancho II, tinha o título de rainha por ter sido rainha de Castela, ainda que por um pequeno período de tempo, antes de ser repudiada pelo marido. Voltou a Portugal dando entrada no mosteiro cisterciense de Arouca, onde jaz.

5. Após esta doação, entre os anos de 1239 e 1247, vários particulares com bens adstritos à mesma igreja foram passando as suas propriedades para a mão da sede portuense. Pelo menos até 1241 os motivos das doações são, em várias: «ob gratiam Fratrum Predicatorum» e numa «ad preces fratrum predicatorum».

6. Frase que faz agora apenas meio sentido, mas era adequada aquando da publicação original (28/11/2018).


Bibliografia: Scriptores et Notatores - produção documental da Sé do Porto 1113-1247, da Dr.ª Maria João Oliveira e Silva.

terça-feira, 26 de março de 2024

Uma nova casa para Deus... mas emprestada!

Esta publicação é recuperada de um blog que possuí, inteiramente dedicado ao convento de S. Domingos. Mais publicações destas surgiram nesta Gazeta, conforme a vontade me for proporcionando a escrevê-las.

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Caro leitor, vamos agora dar um salto de algumas centenas de anos para a frente na história da casa dominicana portuense! Este salto tem dois objetivos: o primeiro, não enfastia-lo com latim, o segundo, dar a conhecer parte de um documento que creio inédito e que encontrei durante as minhas pesquisas.


Mas primeiro uma pequena introdução: o ano é o de 1778, o dia o de 24 de Abril, o acontecimento: um incêndio na igreja dominicana que destrói o seu telhado. E sinto-me compelido a fazer uma retificação: Todas ou quase todas as fontes escritas que a este incêndio se referem dão-no como acontecido em 1777. Não, não foi. Foi na data atrás referida. Pedro Vitorino é, segundo creio, a única voz que clama no deserto. Porque estou tão certo da data? Porque um indivíduo holandês morador na cidade à época a registou (bem como outras datas bastante interessantes para a história do Porto). Com certeza que com isto não é minha pretensão condenar todos os que deram como certo o ano de 1777, posto que se tratará de um erro inocente e o próprio autor dele - Agostinho Rebelo da Costa - não o terá feito com dolo. Ainda assim, ela repete-se e repete-se, correndo o risco de se tornar verdade... (ver nota no final)


O documento que refiro é um inventário de bens em sequestro exigido como condição pela rainha D. Maria I aquando da entrega da antiga igreja da Ordem Terceira de São Domingos aos frades Pregadores, onde constam os bens que ficavam ao cuidado destes. Desta forma ficou o templo sendo a igreja oficial do convento de S. Domingos (mais tarde a outra igreja seria reduzida a armazém). A Ordem Terceira, essa, fora já dada como extinta em 1755 como corolário de um processo que "cheirou mal" desde o início e que não se sabe muito bem quando começou embora tenha para mim que a coisa começou a azedar ainda no final do século anterior... Bem, mas quem não gostou nada da entrega daquele templo aos frades foi a Ordem da Trindade, sucessora da terceira dominicana, que se achava dona de tudo aquilo e que reclamou para si durante mais de 50 anos a propriedade ainda que sem sucesso. Chegaram mesmo, em 1835, a pedir como indemnização a igreja velha dos dominicanos, mas isso são histórias para depois...

carneiro da igreja dos terceiros, escavada em 2012/2013, no âmbito da reconversão do chamado eixo Mouzinho Flores


Vamos então ao documento e vejamos, abreviadamente, qual era o conteúdo daquele templo desenhado por Joaquim Cardoso Vitória Vilanova (era a imagem de rosto deste blog, que o leitor pode ver aqui):


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Bens que estavam em sequestro em poder dos religiosos dominicanos na igreja nova


Capela-mor: seis anjos estofados; uma imagem de Nossa Senhora por cima da banqueta; da parte do Evangelho a imagem de S. Francisco e da parte da Epístola a imagem de S. Domingos; duas credencias (sic) de talha douradas; cinco pedras de ara dos altares; duas imagens de santos entre varandais; o altar da parte do Evangelho com sua pedra de ara e uma imagem de Santa Margarida e outro altar ao pé também com pedra de ara com a imagem de Santo António que nele se achava; o altar da parte da Epístola com as imagens de São José e Santa Ana e pedra de ara, no altar imediato as imagens de Nossa Senhora da Conceição, Beata Osana e Beata Colomba com pedra de ara, que são as mesmas cinco que acima se fez menção.


Corpo da igreja: quatro quadros grandes com caixilhos dourados de talha, pregados dois de cada lado; em todo o corpo da igreja de nichos e em cada um deles sua imagem de diversos santos de 6 palmos de altura; um anteparo da porta principal; no coro um órgão desconcertado, e com falta de vários canudos [hoje na igreja matriz de Avintes]; seis varandas no corpo da igreja, de talha dourada, e quatro na capela-mor; o espaldar e grades onde se juntavam os irmãos da mesa, tudo arruinado; dois confessionários de pau; duas bacias somente em dois altares de lançar a água do lavatório [lavatório que está atualmente no jardim de S. Lázaro]; doze sacras dos altares; cinco estantes de pau dos mesmos; mais duas pedras de ara além das cinco já ditas.


Sacristia: dois caixões com suas chaves de guardar os paramentos por cima dos quais dois espelhos grandes, cada um dividido em três; um retábulo ou oratório de talha dourada com seis nichos e em cada um sua relíquia, com seu frontal de talha dourada; quatro bandeirolas mais duas pequenas de talha dourada por cima das vidraças; uma mesa de mármore com pé do mesmo de se porem os cálix no meio da sacristia; uma guarda-roupa embutida na parede de guardar os ditos cálix; um espaldar de talha em feitio de resplendor [e] em ele uma cortina de seda muito velha; uma chave do sacrário pequena perfumada de prata com sua fita de peso muito usada; duas palas da porta do sacrário, uma de seda de ouro guarnecida de gabões do mesmo fio, e outra de damasco branco muito usada guarnecida de renda de ouro do mesmo uso; as chaves que dizem respeito à porta da igreja, sacristia e cemitério; a casa do cemitério com duas lojas a ela pertencentes; a casa do despacho que confronta com a sacristia e outra por baixo desta; altar principal do mesmo cemitério e nele as imagens seguintes - um santo do tamanho de 1 palmo e S. Domingos, um Senhor dos Passos com túnica roxa, cruz às costas e resplendor de folha dourada, de estatura de um homem; dentro do altar uma imagem do Santo Cristo morto, da mesma estatura, com dois véus, coberto de garça, colchão, e um lençol, e duas almofadinhas, e um véu de tafetá roxo de o cobrir; um frontal de tábua pintado e frisos dourados, dois castiçais de pau pequenos e velhos; seis jarras de pau e destas quatro douradas, e tem ramos(?) entre os quais dois são de papelão prateados; quatro lâmpadas de latão de dois palmos de alto; em um altar colateral da parte do Evangelho o Senhor amarrado à coluna, com uma toalha de linho, com renda e resplendor de folha dourada com frontal de tábua pintada e franja dourada; da parte da Epístola outro altar com a imagem de Ecce Homo com toalha de linho com renda e uma capa de damasco encarnada velha e frontal de tábua, e franja dourada, dois painéis de pano pintado; um de S. Domingos e outro de S. Caterina de 6 palmos de altura com caixilhos muito velhos de talha; oito cruzes com resplendor e pontas de talha dourada de 6 palmos de alto pregada nos varões dos arcos do corpo do cemitério, no fim do mesmo cemitério um altar com retábulo dourado, muito velho, e seis imagens; três escadas do serviço da igreja, e as grades das frestas, e altares com vinte e três varões de ferro delgados, sendo as grandes dezassete, mas algumas quebradas mais quatro varões de ferro das alcatifas da capela-mor; nove ferros de vidraças, porque sendo catorze só se entregaram cinco; duas andarelas(?) de metal dos altares, e um jarro de estanho velho, e uma caldeira de água benta de estanho com seu exópo(?) do mesmo, com uma asa quebrada, e a outra dita de parede com seu exópo?; uma estante de pau pequena; duas cortinas de seda de ouro, de dentro da porta do sacrário, um corporal pequeno com sua renda; uma bandeirinha pequena de S. João bordada de seda; uma mesa de pau pintada de preto usada, que se acha na sacristia e se não podia tirar, sem se quebrar; na mesma um armário pintado de azul de castanho com lotes para papeis, que pela mesma razão, se não tirou; uma lâmpada de latão pequena de palmo, e meio velha; um armário velho detrás da tribuna grande e de castanho...

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Com certeza que a informação que consta deste inventário não interessará, na sua maioria, para o estudo da história. Contudo não deixa de apresentar o texto preciosas ainda que escassas descrições de como estava organizado o edificado que outrora pertencera à ordem terceira e que em 1778 passou para as mãos dos dominicanos, passando a ser partir dessa data a sua igreja conventual de facto.

pormenor do referido carneiro (local onde se colocavam os cadáveres) . a ter sido inteiramente intervencionado, todo o topo da rua Ferreira Borges revelaria certamente mais pormenores históricos, nomeadamente aquedutos, sobre os quais procurarei falar em devido tempo...


Do edificado que tudo isto albergou resta o que se vê nas imagens que apresento, colhidas quando há poucos anos o local foi pesquisado arqueologicamente. Como vemos, apenas parte do antigo carneiro da igreja ainda lá se encontrar e nela alguns dos seus "ocupantes"; aqueles que há centenas de anos escolheram o templo para sua última morada e que nem poderiam imaginar que no futuro estavam condenados a ser pisados por transeuntes e toda a sorte de ululantes e poluentes veículos movidos por motor de combustão interna...

Viriato


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NOTA: Mais recentemente, pude corroborar esta data consultando um livro do cartório franciscano depositado na BPMP, pois nele se encontram transcritos vários documentos referentes à extinção da Ordem Terceira de São Domingos.

Bibliografia: Petição da Celestial Ordem da Trindade (ADP)

Agradecimento: A Gabriel Silva, leigo dominicano, pela informação sobre o órgão da igreja dos terceiros.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Convite à fundação

Caro leitor, a história do convento de S. Domingos do Porto é um dos dois grandes temas portuenses que me fascinam, ainda que nada movido pelo aspeto religioso (sou desconfortavelmente agnóstico). Sobre ele desenvolvi uma investigação que numa primeira fase passou pela pesquisa do que sobre o assunto já se escrevera, e posteriormente pela pesquisa no seu cartório, onde mergulhei com avidez quer no Porto(1) quer em Lisboa(2). Posteriormente surgiu-me a ideia de divulgar alguns aspetos históricos, já conhecidos ou ainda desconhecidos, extraídos dos volumes outrora propriedade daquela casa. A ideia original seria traduzir a investigação em livro. No entanto, com esse tempo cada vez mais afastado, optei por criar uma página sobre o tema, que se integrava quer na história da cidade do Porto quer na da Ordem dos Pregadores em Portugal.

montagem de minha autoria de dois desenhos de Villanova referentes ao convento, usada como capa do blogue original(3) . trata-se do atual Palácio das Artes com a igreja barroca dos terceiros dominicanos a si adjacente (demolida em 1835)

Como em 2022 sofri um auto infligido constrangimento com os meus blogues, optei por agora reaparecer com um único – a Gazeta das Congostas – razão pela qual se verão várias publicações específicas sobre o convento dominicano, entre outras mais variadas, fruto dessa junção. Outro aspeto que creio pertinente realçar, prende-se com o alcance da informação aqui divulgada: ela não pretende substituir-se a um estudo completo sobre o desaparecido cenóbio em todas as suas vertentes. Com efeito, é sobretudo a componente material do edifício que pretendo explorar, pese embora aqui e ali outros aspetos sejam, ao de leve, aflorados.

Feita a introdução necessária, avancemos finalmente para aquela que foi a primeira publicação no blogue original (ver título desta publicação).

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Em 1237 o bispo do Porto, D. Pedro Salvadores, com aprovação do seu Cabido, tomou a resolução de convidar a Ordem dos Pregadores a fundar convento no seu bispado. Para isso enviou uma missiva ao capítulo provincial dominicano celebrado em Burgos, oferecendo casa e terreno para a instalação do cenóbio. O pedido foi bem aceite pelo definitório e logo se decidiu que os frades Gualter e Domingos Galego ali presentes partissem para o Porto, a organizar aquela que viria a ser a terceira fundação da ordem no reino de Portugal depois de Santarém e Coimbra.

O documento que abaixo apresento é o texto dessa missiva tal como ele surge num traslado em pergaminho do século XIV que outrora pertenceu ao convento dominicano e que apresenta algumas diferenças face ao texto da crónica de frei Luís de Sousa/Cacegas. Na margem do documento foi acrescentado séculos depois a simples descrição Carta do bispo ao capítulo. No mesmo pergaminho constam outros documentos referentes à fundação e aquisição de terrenos, cópias que deverão estar relacionadas com um processo judicial entre a comunidade e o bispo, motivado pela construção do alpendre e cemitério. A data está ilegível por manchas que ocupam a quase totalidade das suas primeiras linhas, contudo no cabeçalho em letra posterior lê-se Era 1357 (1319); curiosamente o mesmo ano em que "estalou" a polémica por causa da construção do alpendre.

Existe também um traslado já do século XVIII ligado a um processo judicial, agora entre a comunidade e o Senado da Câmara. Numa passagem da sentença do processo pode-se ler que ocorreu um atraso com o seu despacho por não haver quem quisesse fazer o traslado dos pergaminhos, por serem de letra muito antiga. Ironia das ironias, também este processo estava relacionado com o alpendre, no caso com o seu fim. Mergulhemos então, finalmente, no latim do documento original:

«Venerabilibus viris et in Christo charissimis Priori Prouinciali, et Diffinitoribus, totique Capitulo fratrum Prædicatorum Burgis celebrando, Petrus Dei miseratione Portugallensis dictus Episcopus finalem in Dei seruitio perseverantiam cum salute . Vergente ad occiduum mundo inualescente iniquitate, non iam multorum refrigescit, sed potius extinguitur charitas : nec poterir ignis ille, quem venit Dominus in terram mittere, vt vehementer ardeat sine Divini verbi fabello vllatenus reascendi. Ideò nostris temporibus non dubitamus Ordinem vestrum Dei prouidentia suscitatum, per quem Dominus infrigidatos malitia ad sui amoris incendium reuocaret. Quanta igitur præ cæteris Portugallensibus locis, tam in nostra Dioecesi, quam Bracharensi, et etiam Lamecensi, quæ à vestrorum Fratrum consolatione non modicum sunt remotæ, malitia inundauit, vobis nullatenus sufficimus explicare. Insurrexerunt enim, prædones innumerablis, qui Dominum non timent, nec homines reuerentur, qui de Monasterijs et Ecclesijs, solius Dei cultui deditis, speluncas lattronum efficiunt, nec non claustra pugnantum, stabula iumentorum, prostibula merectricium : direptisque tam clericorum, quam agricolarum, et etiam religiosorum possessionibus, possessores ipsos contra altare crudelitus trucidantes, vel cum ecclesiasticus comburentes, à facto tam execrabili nec admonitionibus, nec excommunicationibus cohibentur. Quis non doleat quosdam paruulorum ab vberibus matrum auulsos gladijs trucidare, alios allidi scopulis, quosdam submergi fluminibus, nisi à spoliatis parentibus prece, vel alio quantulocunque pretio redimantur(?) Quis non horrebit puellas ante annos nubiles violenter abrumpi, et in Ecclesijs plurimorum ex nefandorum hominum libidinosa frequentia expilari(?) Intuentes igitur cum Salomone hæc mala quæ fiunt sub Sole, calumniasque pauperum, et lacrimas innocentium, et consolatorem neminem : nec posse resistere malorum violentiæ cunctorum auxilium destitutos : dignum duximus, de Capituli nostri consilio, et assensu plantare Conuentum vestri Ordinis in loco nostro ad cooperationem salutis animarum, et solatium afflictorum : credentes fratrum vestrorum præsentia cum Dei gratia non modicum vestris partibus profuturum. Damusque vobis in bono loco Ecclesiam consecratam cum domibos in quadro ad modum claustri constructis, et spatium satis latum ad habendum hortum, et ad officinas construendas. Vestram igitur, de qua plane confidimus, rogamus in Domino charitatem, quatenus amore Dei, et nostri, et salutis animarum intuitu, ad iam dictum Conuentum construendum, fratres quos vobis videritis necessarios, qui virtute verbi Dei valeant mala supradicta irrumpere, nobis dignemini destinare. Parati enim sumus, dante Deo, semper eos in ijs quæ poturimus aduuare, et ob dilectionem, quam semper erga vestrum Ordinem habuimus, vberius confouere. Orate pro nobis, et valete.»(4)

amostra da pública-forma de 1319 do documento aqui descrito.

A carta faz forte menção ao conturbado tempo pelo qual Portugal passava durante o reinado caótico de D. Sancho II, rei que em 1245 o Papa viria a considerar rex inutilis, entregando a Coroa ao irmão Afonso. É de horrorosa selvajaria o cenário pintado por D. Pedro Salvadores. Vejamos a versão de frei Luís de Sousa/Cacegas:


«Pedro por mercê de Deus bispo do Porto, aos veneráveis varões e em Cristo caríssimos o prior provincial, e definidores, e a todo o capítulo que está para se celebrar na cidade de Burgos: saúde e em serviço do Senhor perseverança até ao fim.

Cerrando-se já o dia do mundo, e estando quasi no cabo: pois com o poder, e forças que a maldade tem tomado nele, não só se esfria a caridade de muitos, mas de todo se vai perdendo, e apagando: e não se podendo esperar que aquele fogo, que o Senhor veio pegar na terra, se torne a acender, pera que com veemente ardor abrase as almas, se não for avivado, e abanado com o ar, e assopros de sua santa palavra. Por isso assentamos, e temos por certo que criou, e levantou a providência divina a vossa Ordem em taes tempos, pera por meio dela tornar a inflamar em seu amor aqueles, que a malícia do pecado trás enregelados, e amortecidos.

Assi não há palavras que possam bem declarar o muito, que tem crecido os excessos, e desaforamentos, mais que em todas as outras partes de Portugal, neste nosso bispado, e nas comarcas de Braga e Lamego, terras onde se vive longe do trato, e consolação dos vossos religiosos. Podemos dizer, que vai tudo coberto de enchentes de pecados. Porque andam levantados infinitos salteadores, que sem temor de Deos, nem respeito dos homens, fazem dos mosteiros e igrejas dedicadas ao culto, e serviço de um só Deos, covas de latrocínios, castelos de soldadesca, estrebarias de suas bestas, casa pública de mulheres infâmes, e perdidas. E saqueando os casaes, e fazendos dos clérigos, e lavradores, e até dos frades, matam à espada os mesmos caseiros diante dos altares, ou os queimam com os clérigos. E não bastam para refrear tamanhas exorbitâncias nenhumas deligências eclesiásticas de monitorios, e escomunhões. Quem poderá ouvir sem muito dôr, que chegam a arrebatar as crianças dos peitos das mães, e umas passam de estocadas, outras arrebentam nos penedos, outras afogam nos rios, se os pais despois de roubados de todo não acodem a resgata-las com alguma cousa de valia, por pouca que seja, ou com lágrimas, e rogos? Quem não há-de tremer, e pasmar de não valer às moças serem quasi mininas, e muito longe dos anos de casar, pera escaparem de ser com brava violência forçadas, e dentro das igrejas afrontadas por muitos homens juntos em alcateas à execução de tão enorme, e bestial sensualidade?

Todos estes males passam entre nós, e á nossa vista, e vendo sobre eles injúrias de pobres, lágrimas de inocentes, e nenhum consulador, como se queixava Salamão: e sobretudo não sermos poderosos para resistir à força maior da gente danada, e perversa, por estarmos de todo ponto desemparados de quem nos possa valer: pareceo-nos acertado fundar nesta nossa cidade um convento da vossa Ordem, assi para termos nele coadjutores no que cumpre à salvação das almas, como a consolação, e alívio dos atribulados. Pera o que houvemos primeiro conselho, e beneplácito do nosso Cabido: tendo por certo que com a graça do Senhor nos será de muita utilidade espiritual nestas partes a presença, e companhia de taes religiosos.

E desde logo vos oferecemos uma igreja já sagrada, e em bom sítio, acompanhada de umas moradas de casas edificadas em quadro a modo de claustro, com um pedaço de terra bem largo, em que haverá lugar pera fazer oficinas, e prantar horta.

Portanto pedimos a vossa caridade em o Senhor, a qual estamos confiados: que por seu amor, e nosso, e polo que toca à salvação das almas, hajais por bem mandar-nos logo os frades, que vos parecerem necessários pera ordenarem o Mosteiro: e que sejam pessoas de tal valor, que com o poder, e armas da palavra de Deos se possam opor, e fazer guerra aos males, que temos dito. Porque de nossa parte estamos prestes com o favor Divino, pera os ajudar em tudo o que pudermos, e os agasalhar com muito amor, polo que sempre tivemos a esta Ordem.

Encomendai-nos ao Senhor, que vos guarde, e dê saúde.»


E agora, para os resistentes que ainda me leem, a versão em castelhano de frei Juan Lopes que não é bem igual:

«A los venerables varones carissimos en Cristo, Provincial, y difinidores, y a todos os vocales que se han juntado a celebrar capitulo en el conuento de Burgos, de la Orden de los Predicadores. Pedro por la divina misericordia Obispo de Oporto, salud, y perseverancia hasta el fin en el servicio de nuestro Señor.

Acercandose ya la fin del mundo quando la maldad ha cobrado tan grandes fuerças, que ya no solamente se puede dezir, que la caridad christiana se ha enfriado sino que de todo punto falta aquel divino fuego que el señor embio al mundo con deseo que sé encendiesse en los coraçones de los hombres, tiene necessidad de instrumentos que le enciendan, y abiben con este intento, en nuestros tiempos tenemos por cierto que ha sido providencia divina dar al mundo vuestra Orden. La qual sirva de reducir al amor divino los coraçones que la malicia tiene frios. Echase de ver este fructo en este Obispado y en el de Braga, y en outros. Donde no a entrado la predicacion de los frailes de vuestra Orden, los pecados en salide de madre, y la perdicion a llegado a estado que es impossible significar la perdicion que en todo ay. Està la campaña llena de saltadores, e ladrones, hombres sin numero que han ya perdido el respeto a Dios, y al mundo, gente tan perdida, que los monasterios, y iglesias consagradas al culto divino son cuebas de ladrones, donde se recogen, y los claustros donde se han encerrado los religiosos a hazer guerra, a los vicios, y al demonio son cavalleriças de bestias, y casas publicas donde se acogen las mugeres perdidas, y rameras. Tienen tiraniçadas las possessiones de los labradores, de los clerigos, y de los frayles. Matanlos estando arrimados a los altares, ò mueren abrasados quando queman sus iglesias. Las maldades son abominables, y de ningun provecho, amonestaciones, ni excomuniones, que con todo lo que devia ser remedio, se encruelecen màs. Quitan los niños de los pechos de sus madres, y en su presencia los deguellan. Dan con ellos por las paredes, ò ahoganlos en los rios, perdonan a solos aquellos, que con ruegos, y dineros redimen sus padres. Es espanto dezirlo. Sacan las donzellas de casa de sus padres, y las deshonran, y porque a tan grand maldad, acompañe el sacrilegio sirven las iglesias de mancebias, donde suceden semejantes casos.

Mirando con Salomon tan enormes pecados, como son estos, y otros que se hazen al medio dia (como dizen) y a vista del sol, y viendo las calumnias que padecen los pobres, las lagrimas de los inocentes por una parte, y por otra que non ay quein consuele los miserables, ni quien haga resistencia a tan grandes violencias, sin aver quien los favarezca en tan grandes males. En este estado se hallan las cosas desta provincia.

Solo un remedio se nos ha ofrecido que es despachar a vuestro capitulo, y rogaros que nos embieys frailes que edifiquen convento en esta ciudad. Que servira de dos cosas la presencia de los religiosos. La una que encaminaran la salvacion de las almas, y la otra que lo animaran a los afligidos, que tan grand necessidad tienen de consuelo. Teniendo por cierto que con la presencia de vuestros frayles, sea de servir el Señor de hazer una gran reformacion en estas partes. Y os ofrecemos casa, y Iglesia consagrada con casas puestas en tal disposicion que podran servir de claustros, se os dara sitio tan capaz que en el se puedan hacer todas las oficinas necessarias, y dexar un jardin para recreacion de los religiosos. Con la confiança de que vuestro zelo tenemos, rogamos en el Señor en vuestra caridad, que poniendo los ojos en lo que a su Magestad deveys, y al amor de los proximos, y salud de las almas nos embieys frayles que os parecerien necessarios, que funden convento, y con la fuerça de la palabra de Dios, vençan tan grandes males, assegurandoos que los favoreceremos en todo lo que fuere posible, llevados del amor que siempre avemos avemos tenido a vuestra Orden.»


Creio, caro leitor, que cada uma das versões vale por si só, uma mais chegada ao original aqui, outra ali... mas ambas interessantes de ler, mesmo tendo em conta os terríveis factos que descrevem.


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1. Arquivo Distrital do Porto.

2. Arquivo Nacional Torre do Tombo.

3. Esta montagem fi-la originalmente em versão mais fraca, tendo-me já deparado com ambas versões copiadas e usadas por outros nos seus trabalhos, sem a referência ao local onde a foram colher...

4. Por ventura uma ou outra palavra poderá vir ainda a ser revista uma vez que no original constam abreviaturas das quais não obtive ainda confirmação.

Bibliografia pergaminho do antigo cartório do convento (TT); Primeira parte da história de S. Domingos (Fr. Luís de Sousa/Fr. Luís de Cacegas); Tercera parte de la historia general de Santo Domingo, y de su Orden de Predicadores (Fr. Juan Lopez).

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Uma memória (quase) perdida

No ano de 1576, aí por maio, realizou-se no convento de S. Domingos do Porto um acontecimento raro. Com efeito, naquele ano, quiseram os homens que ocorresse o capítulo provincial da Ordem dos Pregadores neste convento; casa de secundária importância, ainda assim a terceira mais antiga de Portugal. Era provincial frei Estêvão Leitão que em conjunto com os seus definidores achou por bem convidar o arcebispo de Braga para o concílio. Este convite não era despropositado: quem ocupava aquele cargo era o famoso frei Bartolomeu dos Mártires, um dominicano.


Homem humilde e verdadeiro servo de Deus, fr. Bartolomeu aceitou o convite e deslocou-se à nossa cidade para se unir em fraterna convivência com os seus irmãos. Quis entrar pela calada da noite para a população não lhe preparar pomposas manifestações de alegria e regozijo por o receber dentro das suas portas... mas em vão: todos o esperavam, todos o queriam ver. O bispo D. Aires da Silva(1) convidou-o a pernoitar no seu paço, mas o frade/arcebispo preferiu a companhia dos seus e foi no convento do Porto que repousou da caminhada desde Braga.


Durante o capítulo foi-lhe requisitado que pregasse no púlpito, ao que ele astuciosamente se escusou, evocando falta de hábito em o fazer com a consequente perca de destreza no uso da palavra em tão importante função. Mas, no chamado capítulo de culpis, requisitado de novo para a pregação, não teve outra opção senão fazê-lo, em nome do voto de obediência que todo o dominicano professa.

frei Bartolomeu dos Mártires (à esquerda podemos ver as armas da Ordem dos Pregadores OP)


E agora principia o episódio que fr. Luís de Sousa tão bem narrou. É que, no dia seguinte, quando subiu ao púlpito, já a notícia se espalhara pela cidade e «foi cousa nunca vista o concurso de gente na igreja a vê-lo e ouvi-lo». Depois, conta ainda fr. Luís de Sousa um milagre que terá ocorrido aquando do discursar do Arcebispo. Entre a verdade e a lenda, a verdade é que se trata de um dos poucos episódios descritos que terão ocorrido dentro daquela igreja que o Porto esqueceu, pelo que merece ser recordado. Segue a transcrição do texto:


α

«Neste sermão se conta que lhe aconteceu aquele caso tão raro, que podendo ser o caso, tem muito de prodígio espantoso, quando não quisermos conceder que nele houvesse milagre, ou revelação, que é bem de crer que a houve. Veio a tratar de muitos males que causa em uma alma o torpe vício da sensualidade. Discorrendo por eles encarou para um lugar onde estava assentada uma mulher que nas visitações do bispo trazia mau nome; e não tirou os olhos do lugar, nem dela por um espaço grande apertando a matéria com tanta energia que não faltava mais que nomeá-la por seu nome. Estava a mulher corrida (e não devia ser do mais vil do povo) parecendo-lhe que toda a igreja seguia o arcebispo em pregar os olhos nela: senão quando prosseguindo o arcebispo a matéria, e querendo fazer uma figura de retórica com propor um exemplo vivo em pessoa e nome, acode com o nome da mesma mulher e começa a nomeá-la, e chamar por ela uma e muitas vezes. Quando a pobre ouviu o seu nome, acabou de se persuadir que com ela o havia o arcebispo, e que não podia ser senão, que tinha novas de sua vida, e não sentindo que remédio tomasse em tamanha afronta como imaginava em meio de toda uma cidade, que não era menos o auditório, deixou cair o manto sobre os peitos, e assim esteve até ao fim do sermão desfazendo-se em lágrimas. E não era bem acabado quando se levantou e saiu da igreja julgando e assentando consigo, que quantos nela ficavam, eram já testemunhas do que se passava em sua consciência.

O bispo ficou tão cheio de espanto do que ouviu, que quase não dava crédito a suas mesmas orelhas. Chamou depois o escrivão da visitação que também esteve presente, benzia-se o homem e fazia pasmos de como podia ser ter o arcebispo notícia do que se passava no segredo da visitação, e do seu escritório: e se a não tinha, como era possível falar tão determinadamente, e tanto ao certo».

ω


É este sem dúvida um facto mais ou menos lendário ainda que de agradável leitura; o que não podia ser de outra maneira dado ter saído da pena de um autor de uma prosa deliciosa; versando a vida de um homem superior. Um homem que, em Trento, teve a coragem de dizer que os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais ali presentes, também haviam mister de uma ilustríssima e reverendíssima reformação! Sem mais! Foi esse grande homem, um incansável calcorreador da sua arquidiocese para se inteirar continuamente de melhorar seu estado, que passou pelo Porto naquele longínquo maio de 1576 e pregou desde o fundo da sua alma, ali onde agora pernoitam e passeiam turistas.

Viriato


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1. Bispo que tombou em Alcácer Quibir em 1578.

Bibliografia: Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires por frei Luís de Cacegas e frei Luís Sousa (1619).

sábado, 7 de outubro de 2023

Em que local se fundou o convento dominicano do Porto?

Em março de 1238 já os primeiros domínicos se encontravam no burgo em grande afã construtivo e necessitados de toda a ajuda possível; é que naquele tempo, não tenhamos dúvidas, os mendicantes metiam literalmente a mão na (arga)massa. Para o ilustrar vejamos esta passagem de Fr. Luís de Sousa, que embora se referindo a uma parte da vida de frei Gil de Santarém, não fugirá muito da realidade da época: «... passou a caso pelo sítio em que os frades de S. Domingos [de Palência] andavam atualmente rompendo paredes em umas casas velhas, e levantando outras para comporem seu conventinho: viu ferver a obra, e nela amassando cal, e carregando pedras cobertos de pó, e caliça homens, que no gesto, e no jeito, mostravam não haver nascido para tais misteres.»(1).


Embora nas constituições dominicanas que regiam a vida das suas comunidades existissem regras bem definidas sobre como poderiam as mesmas levantar as suas casas, a verdade é que, pelo menos no nosso país, os conventos foram fundados aproveitando instalações pré-existentes fossem elas hospedarias, ermidas ou simples casas de habitação. Ainda assim essas instalações necessitavam de ser adaptadas pois destinavam-se a albergar uma comunidade de homens que dali fariam a sua casa.


Mas, onde ficava esta igreja consagrada com casas em seu redor dispostas em quadra, que o bispo lhes doara? Embora a resposta seja fácil quanto ao local, não é fácil de responder quanto ao que e como era aquela estrutura antes dos dominicanos ali se instalarem. É bastante provável que a ermida da Nossa Senhora da Escada fosse a igreja que o bispo oferecera. Situada no topo de uma escada íngreme e aparentemente rodeada de construções em quadra; estas instalações não vem referenciadas em documentos daquela época ou anteriores, pelo que talvez nunca venhamos a saber a época a que remontavam e que funções desempenhavam antes da Ordem dos Pregadores delas tomar posse. A hipótese colocada pelo douto historiador Dr. Ferrão Afonso, aponta para a possibilidade de aquelas estruturas constituírem a «albergaria novae de Portu», assim mencionadas no testamento do bispo D. Fernando Martins em 1185(2).


O convento implementou-se perto de um caminho de acesso à cidade, «prope viam quae tendict ad suburbium de Miragaya»(3); isto é, um caminho que vindo da cidade descendo a rua da Bainharia virava à esquerda na travessa do mesmo nome e passando a ponte de S. Domingos na chamada cruz(4) de S. Domingos (onde já existiam azinhagas que viriam a dar mais tarde a rua da Biquinha e a das Congostas) iniciava a subida e prosseguia rente ao monte da Vitória, acompanhando sensivelmente o trajeto das escadas do mesmo nome bem como a rua da Vitória no seu troço junto a Belomonte. Há época, casas por ali é coisa que quase não existia como vamos ver mais à frente, quando os frades adquiriram alguns terrenos para alargarem a sua propriedade.


Abaixo, com a ajuda do googlemaps, tento dar uma ideia do local:

Esta área da cidade, hoje tão central, seria em 1238 ainda praticamente um ermo onde imperavam azinhagas, vinha, cidrais e carvalhal. O E representa o local onde se situava a ermida de Nossa Senhora da Escada e o C a cruz de S. Domingos (que obviamente só terá este nome depois de surgir o convento). A linha roxa representa sensivelmente o caminho que seguia para o subúrbio de Miragaia.

Viriato

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1. Uma prova mais concreta de que os frades metiam mão à obra na construção dos seus conventos, está demonstrada pelo trabalho da investigadora espanhola Diana Lucía Gómez-Chacón, Las escenas constructivas del claustro de Santa María la Real de Nieva (Segovia)

2. Ver A imagem tem de saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606) daquele autor, p. 26, nota 109.

3. Extraído de um documento do cartório do convento, de 1307, referente a uma protestação a uns pedreiros.

4. Cruz tem aqui o significado de encruzilhada, ou mais modernamente, cruzamento.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Levantando uma casa

Na ausência de uma data concreta para a fundação do convento de S. Domingos do Porto, a expressão mais correta que podemos empregar é que ela terá ocorrido «no anno de 1237 para o de 1238». Esta expressão não é minha. Foi usada pelo frade dominicano que escreveu o Livro da Fazenda de 1737.

Existem outras duas datas frequentemente referidas, mas que creio não serem sustentadas documentalmente: a primeira - 1236 - surge no Livro do Foral de 1728, num capítulo relacionado com o abastecimento de água à comunidade e que é apresentada sem mais nada. E a bem da verdade esta passagem mais se parece referir à altura em que D. Pedro Salvadores enviou a sua missiva a Burgos e não ao estabelecimento dos primeiros frades no Porto, pois diz: «No ano de 1236 nos mandou vir para esta cidade o sr. bispo D. Pedro Salvador».

O outro ano também bastante vezes referido é o de 1239. Acontece porém que neste caso a data foi inicialmente apontada no século XVII por Manuel Pereira de Novais na sua obra Anacrisis Historical, tendo como base a crónica dominicana do espanhol frei Juan Lopez. A data foi subsequentemente repetida em várias obras, nomeadamente na influente Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto de Agostinho Rebelo da Costa. Acontece que o cronista espanhol comete um pequeno erro de computação de um ano ao verter a Era de César para o Anno Domini, quando se refere à carta que vamos ler abaixo (aliás já frei Luís de Sousa, no prólogo à sua crónica, queixa-se que o seu homólogo comete vários erros ao tratar dos conventos portugueses). A passagem em frei Juan Lopez diz: «Dada en Oporto, en Era de mil y dozientos y setenta, y seis, que es año de 1239, por el mes de Março». Contudo, se subtrairmos 38 anos à Era de 1276 vimos a ter 1238(1).

Posto isto, a única certeza que temos é que em março de 1238 os frades já se encontravam no Porto e em grande labuta construtiva dado que o mais antigo escrito datado que a ele se refere, lavrado no mês de março da Era de 1276, reporta à construção do convento. O documento em si tem como alvo a população portugalense, referindo as benesses que o bispo estava disposto a dar a todos que ajudassem os frades a erguer casa. Fosse no empilhamento de madeira, na condução de pedra ou mesmo trabalhando por um dia na obra, por sua mão ou pela mão de outrem; todos que ajudassem receberiam indulgências. Ei-la:


«Petrus Dei patientia portugallensis episcopus omnibus tam clericis quam laicis in portugallensi dioecesi commorantibus salutem et bonis operibus habundare. Noveritis nos ffratres prædicatores ad morandum in civitate nostra de consensu, et voluntate canonicorum, et omnium ciuium portugallensium recepisse, credentes ipsos vtiles et necessarios corporibus et animabus degentium in ciuitate et in episcopatu nostro. Vnde cum prædicti fratres nihil habeant, nec possint sine nostro iuuamine et vestro ecclesiam et domos sibi necessarias construere vniuersitatem vestram rogamus atque in remissionem vestrorum vobis iniungimus peccatorum quatenus tam in lignis colligendis quam etiam in lapidibus ducendis operi prædicatorum fratrum necessarijs vos exhibeatis propitios et deuotos iuxta illud . Sibi ædificat qui domum Dei ædificat. Nos igitur de Dei misericordia plenissime confidentes, omnibus, qui sibi fideliter inuenerint in lignis colligendis et lapidibus ducendis vel ibi corpore proprio laborauerint per unum diem, vel operarium miserint loco sui quadraginta dies de iniuncta sibi legitime paenitentia misericorditer relaxamus atque in hunc modum qui operi suprædicto et fratribus plus boni fecerint plus mercedis accipient et coronæ. Datum Portugalliæ sub Æra M.CC.LXXVI mense Martij.i Valeat usque ad duos annos.»

contraste entre o traslado do século XVIII (acima) e a pública-forma do século XIV (abaixo) da pastoral de D. Pedro Salvadores

Esta carta encontra-se preservada em pública-forma de 1319, num de dois pergaminhos com vários e importantes documentos sobre a fundação do convento (consta também num traslado do séc. XVIII, motivado por uma pendência judicial). No pergaminho está assim titulada: «Carta de perdão que o bispo D. Pedro deu a todolos que ajudassem a lavrar e esmola dessem para a fábrica do mosteiro e como foi edificado com autoridade do bispo».

Não obstante as palavras bondosas do prelado, veremos como uns meses depois desta missiva a situação deu uma volta de 180º, ao ponto de se temer a expulsão dos dominicanos do bispado portugalense!

Viriato


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1~ Fr. Juan Lopes refere também a carta de D. Sancho II em que este se dá como protetor do convento, esta sim, corretamente datada de 1239. Contudo o autor parece insinuar que a carta do rei é anterior à do bispo, o que não é verdade. A carta do rei é consequência do conflito que logo em 1238 se instalou, sobre o qual falaremos mais à frente.

Bibliografia: pergaminho do antigo cartório do convento (TT); Primeira parte da história de S. Domingos (Fr. Luís de Cacegas/Fr. Luís de Sousa); Tercera parte de la historia general de Santo Domingo, y de su Orden de Predicadores (Fr. Juan Lopez).

O Breve papal e a concórdia com o bispo

Voltamos agora ao tópico convento de S. Domingos ; um dos temas a que mais dediquei. Quando Frei Luís de Sousa/Cacegas refere na sua Crónica...