domingo, 15 de junho de 2025

Uma outra 'Ponte das Barcas'

A ponte de barcas, inaugurada em 1806, foi a primeira estrutura de caráter permanente sobre a qual quem demandasse as margens do Douro, podia atravessar. Refém do clima, a sua permanência era por isso relativa. Ainda assim, o certo é que esta ponte foi a ligação possível entre Porto e Vila Nova de Gaia durante quase quatro décadas. Mas quantos saberão que aquela não é a estrutura mais antiga de que há registo sobre o Douro junto ao Porto?


Pois, desta vez, recuamos ao já longínquo século XIV, para visitarmos a nossa cidade numa época em que a sua muralha mais famosa, dita fernandina, não estava concluída. E é precisamente no reinado de D. Fernando que vamos parar a nossa máquina do tempo imaginária.

Estamos no ano de 1369, Fernando governa o destino de Portugal há quase dois anos e recentemente envolveu-se numa questão que apenas lhe trará dissabores. Com efeito, com a morte do rei de Castela, Pedro I — o Cruel — o seu irmão bastardo, Henrique de Trastâmara, declara-se pretendente ao trono. Ora, D. Fernando — e outros — achavam-se igualmente no direito a ele. De tal forma as coisas evoluíram, que se acabou por criar um estado de guerra entre o nosso rei e o pretendente castelão (1).

Num desses episódios, Henrique de Trastâmara pôs cerco a Guimarães e D. Fernando, que se encontrava em Coimbra, decidiu vir a seu encontro para o defrontar ou demover. De permeio, o exército do rei teria de passar o Douro, rio bastante fragoso e de corrente violenta (2). Acontece que, para o transpor, o rei deu ordens muito específicas aos portuenses, que ficaram registadas na crónica dele escrita por Fernão Lopes:

E mandou logo suas cartas à cidade do Porto, que muito à pressa fosse feita uma ponte de barcas no rio do Douro, por que ele e toda sua hoste pudessem passar em um dia, por quanto sua vontade era em toda guisa ir pelejar com el-rei D. Henrique; e que isso mesmo se fizessem prestes os moradores do lugar para se irem em sua companha. Os da cidade mui ledos com este recado, foram todos postos em grande trigança para por isto em obra, uns a chegar barcas, deles a carretar madeira, outros a lançar âncoras e amarrar cabres; de guisa que muito aginha foi feito uma grande e espaçosa ponte, lastrada de terra e de areia, tal por que folgadamente podiam ir através seis homens a cavalo: e isto feito, fizeram-se prestes todos os homens de armas, e de pé, e besteiros com a bandeira da cidade, para irem em companha de el-rei à batalha. Partiu el-rei D. Fernando de Coimbra com todas suas gentes, e dizem que chegou até o Porto...


Assim constatamos que, de um singelo parágrafo perdido numa crónica, podemos extrair, como se de arqueologia documental se tratasse, a referência escrita mais antiga a uma ponte sobre o Douro que ainda que por apenas um dia, uniu a margem de Vila Nova com a da Ribeira (ou Miragaia). Consegue o leitor imaginar a hoste de D. Fernando — cavaleiros, besteiros e pionagem — alinhada no areal onde agora temos o Cais de Gaia, enfileirada a aguardar a sua vez de passar? Só podemos, é claro, criar uma imagem mental. Ainda assim, que imponente visão do passado essa!

Viriato


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1. A palavra original em português, por evolução fonética, do atual termo castelhano.

2. Disso mesmo se lembrará o leitor que ainda tenha assistido a alguma das cheias invernais, fenómeno que a construção das barragens praticamente extinguiu.

Publicada originalmente a 21-10-2019 n'A Porta Nobre.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Uma imagem misteriosa

Pouco antes da Biblioteca Pública Municipal do Porto fechar portas para a sua total remodelação, que a obrigará a estar por mais de cinco anos encerrada, era o meu passatempo preferido ali me deslocar, aos sábados de manhã, na procura de velharias, antiguidades, "ineditidades" nos jornais antigos do Porto. Numa dessas rusgas acabei por encontrar, num pouco conhecido - e de curta vida -- periódico do início do século XX chamado O Porto, uma ou outra imagem surpreendente. A imagem que aqui apresento, levou-me pouco tempo a identificar com acuidade, embora já a tivesse desde 2022. A verdade é que só na última semana "me virei" para ela, com mais atenção.

Foi relativamente fácil chegar à conclusão a que cheguei, e que creio o leitor me acompanhará, pese embora não exista(?) qualquer outra imagem deste ângulo. Não nos deve surpreender. São ruas de pouca história. Não existiram durante muito tempo. A espinha dorsal de todos estes arruamentos, a Rua do Almada, datava do meado do século XVIII; pouco para uma cidade "fundada" em 1123(1).

A Travessa da Fábrica, num apontamento inédito(?) dela. Ao fundo, e tal como ainda hoje para quem vê do início da Rua de Avis, temos a Rua da Picaria, que sobe em ligeiro ângulo (embora a fraca qualidade da imagem não o deixe perceber).


Bem, na legenda já adiantei o segredo... agora fundamento como lá cheguei: esta fotografia surge na edição de 22 de setembro de 1911 do jornal acima referido e tem como título A Carestia da Vida. Triste título... mas falar sobre esses tempos de desespero deixarei para outrem, que o fará de certeza bem melhor do que eu! A legenda da imagem é Venda do azeite na CASA FAVORITA (Castanheira e Fonseca).(2)

Ora foi por aqui que comecei. Procurando no motor de busca do Arquivo Municipal do Porto, pude encontrar, seguindo o nome da sociedade, um pedido de licenciamento de alteração de um edifício com frente para a Rua da Fábrica e Travessa da Fábrica (aqui); de janeiro do mesmo ano em que o cliché foi captado. Ainda sem qualquer ideia de que edifício ao certo seria, mas tendo conhecimento da existência e demolição da Casa da Fábrica, tendo as suas pedras andando em bolandas até se perderem de vez; procurei por esta via, e pela primeira vez, saber o local exato onde este casarão imperara. E ela existiu, alguns leitores já o saberão, na esquina entra a Rua da Fábrica e a Travessa da Fábrica (hoje denominada Rua de Avis).

Pormenor de uma das cartas de Teles Ferreira, onde o CF assinala a Casa da Fábrica e a seta a orientação da fotografia.


Procurando elementos na imagem que ajudassem a esclarecer o mistério, foi olhando para outras já conhecidas do edifício e do próprio arruamento, tendo chegado àquela conclusão. Também com a ajuda da carta topotgráfica de Teles Ferreira e sua equipa, que nos mostra o Porto tal como ele era na última década do século XIX. Em caso de o leitor ainda não se ter apercebido, a imagem abaixo pretende ilustrar a forma como deduzi que o edifício que se vê em ângulo, imediatamente à frente do fotógrafo, é a própria Casa da Fábrica; assinalando os pormenores que me serviram como "meio de prova".


Repare-se que na fotografia agora trazida a público, a rua se reduz a metade da largura umas dezenas de metros depois do seu início. Vendo-se do outro ângulo percebe-se porquê, e a fotografia abaixo, já conhecida, mostra o seu afunilamento, imediatamente antes de encontrar a Rua da Picaria e a Travessa da Picaria.

A mesma rua da imagem inédita, vista da sua outra entrada. O X assinala a Casa da Fábrica e o círculo a janela de onde presumo ter sido tirada a foto (ver aqui o edifício, que ainda existe). Atrás do fotografo está a Rua da Picaria, e ao lado esquerdo a Travessa da Picaria, que terminava na Rua do Almada, em frente à garagem d' O Comércio do Porto.


Espero, caro leitor, apesar da parca qualidade da imagem, ter contribuído de alguma forma para o conhecimento de um arruamento já desaparecido(3) da cidade. Um arruamento sem grande história, é verdade, mas que desta forma podemos subtrair ao semiesquecimento que a muito útil carta de Teles Ferreira lhe dava, onde os edifícios não são mais do que retângulos cor-de-rosa.

Hoje mesmo, numa breve conversa com o Sr. Miguel, proprietário da livraria alfarrabista Moreira da Costa, fiquei a saber que aquele estabelecimento ainda esteve, nos seus primeiros tempos, nos baixos da Casa da Fábrica. E segundo ele, o ponto exato em que se localizava era, por acasos do destino, quase exatamente o mesmo onde se encontra agora, embora o edifício seja uma nova construção.

Resta referir que os edifícios da sociedade Castanheira & Fonseca correspondem, na fotografia, ao lado esquerdo da rua, fazendo frente para a célebre, porém condenada, Casa da Fábrica. Esta firma tinha a sua fachada principal virada à Rua da Fábrica, e como se pode verificar nesta foto, a moldura da loja coincide com o projeto de janeiro de 1911.

Viriato


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1. Data do foral outorgado pelo bispo D. Hugo ao seu burgo, que utilizo de forma simbólica.

2. Diz mais que o cliché é da Photo-Bazar Limitada.

3. Mais ou menos... a rua está lá. Tem outro nome, é mais larga e o edificado é completamente diferente.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

O dia em que a Torre dos Clérigos estremeceu!

Existe, do historiógrafo portuense Henrique Duarte e Sousa Reis, um volume pouco conhecido intitulado Apontamentos para os Anais da Cidade do Porto 1832-1839. Escrito, a julgar por datas insertas no texto, nos anos sessenta do século XIX, contêm muitas e interessantes informações para aquele quase esquecido período em que dura a guerra civil e, sobretudo, os anos subsequentes. Nele o autor introduz, através da data, o assunto ou assuntos que vai tratar, em letra que hoje chamaremos de regular. A seguir, logo abaixo numa letra diferente mas de sua inteira lavra – uma espécie de itálico – acrescenta uma explicação, deduz um raciocínio, aponta um caminho...

O verbete que abaixo apresento, retirado desse manuscrito e referente ao ano de 1835, é apresentado com a ortografia atual, sendo que no original, o segundo parágrafo aparece, como referi atrás, com a tal escrita italizante. Ele termina de uma forma humorística, ainda que se o caso se passasse comigo, não ganharia para o susto!


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«3 de Setembro. Na noite que precedeu este dia caiu um raio elétrico sobre a cúpula da Torre dos Clérigos e lhe destruiu algumas pedras e bem assim as pirâmides que a rematam pelo lado do sul, abalando o globo de cobre sobre o qual se hasteia a cruz de ferro que está colocada no mais alto da dita torre, estragos estes que na sua restauração custaram avultada soma de cabedal à Irmandade dos Clérigos Pobres, a quem pertence este majestoso edifício. Sofreram bastante dano algumas casas sitas na rua da Assunção sobre as quais caíram grandes pedras quebradas pelo raio; uma centelha ou faísca perdida[?] na casa dos Wanzellers em Vilar e outra na torre do mosteiro das religiosas de Santa Clara correndo em várias direções destes dous edifícios pequenos danos causaram mas não o deixaram de fazer com grande susto dos seus habitadores. 

O nenhum uso que esta cidade se faz dos condutores, maiormente quando o Porto é assente sobre altos montes, sujeita-nos a estes acontecimentos, é verdade que não muito amiúde, porém se os houvera talvez nem esses poucos sucessos se dariam: no edifício da Bolsa recentemente colocaram alguns condutores. É notável o que aconteceu com o raio entrado pela Torre dos Clérigos que descendo por ela abaixo entrou no aposento do padre sacristão, e lambendo-lhe algumas moedas de bronze, a que se dá o nome de patacos, e ele tinha sobre a mesa do quarto onde ele dormia nenhum dano lhe fez, porém sumiu-lhe um botim por ter o tacão ferrado, deixando-lhe o outro não obstante ser-lhe igual.»

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Anos se passaram já! E por certo, desde a sua edificação, não terá sido o primeiro nem o último incidente, a envolver este ex-libris portuense. E salvo qualquer cataclismo de enorme magnitude, ela ali estará, altaneira, orgulhosa e belíssima; à espera de um qualquer raio vindo da forja de um qualquer Ciclope!

Viriato

Originalmente publicado em 02-03-2021.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Notícias do Porto oitocentista

Quando há anos comecei a ler os jornais de oitocentos na Biblioteca Pública Municipal do Porto, procurava notícias específicas sobre determinados assuntos. Mas, no meio deles, acabei por descobrir uma sedutora forma de viajar no tempo, até a um Porto que eu não conhecia, nem mesmo lendo os volumes publicados sobre a época, dos mais doutos aos menos elaborados. É de facto o pulsar da cidade que ali temos, que nos é mostrado, literalmente, todos os dias; com as suas lutas e com as suas alegrias, com as suas reivindicações, os seus dramas, os seus anseios... Um livro sobre o Porto de oitocentos através dos jornais, daria, na verdade, uma obra em vários volumes, quase enciclopédica, quase irrealizável. Assim, virando páginas, como num dia descubro que para os lados do Codeçal vivia uma bruxa que enganava os papalvos (o articulista repudiava), num outro me deparo, no ano da morte de Garrett, com uma curta notícia dizendo que o Visconde já se encontrava melhor de saúde, para logo na semana seguinte esse mesmo jornal me informar que morrera (as famosas melhoras da morte?)! Como aqui leio um texto sobre as agressões que existiram a alguns deputados quando chegaram ao Porto, após terem fabricado a Constituição de 1838, logo a seguir leio uma notícia de caráter mais local, mas mais chocante, da tradição que existia das mulheres, as parteiras possivelmente, que na rua passavam frequentemente com os anjinhos, nome pelo qual eram conhecidos os bebés que pereciam muito cedo ou eram natimortos, em caixas abertas, à cabeça, caminho dos cemitérios... Tantos e tantos aspetos, a maior parte deles ausentes de um livro sobre o Porto romântico, onde o ambiente se quer sempre mais ou menos bonito, muito poético, literário; enfim, um mundo de elites e intelectuais, que se hoje não são a maioria, por aquele tempo estavam bem mais longe de o ser! Na vida real, não na romântica, a esmagadora maioria lutava para sobreviver, os seus interesses bem mais pendiam para garantir o pão do dia a dia.

Para ilustrar um pouco este meu pensar, deixo-vos com a transcrição de alguns textos, se bem que parcialmente escritos por minhas palavras. Como costumo referir, são, cada um deles, janelinhas abertas no tempo...


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Crónica Constitucional da Cidade do Porto, de 9 de janeiro de 1834

Cadeia da Relação

Por uma portaria do conselheiro Presidente do Tribunal da Relação do Porto, para «minorar os sofrimentos dos presos das cadeias» e copiando as disposições tomadas em Lisboa, como por exemplo: nas enxovias que ficarem inferiores à rua, se farão estrados altos de madeira, para que subam ao nível da mesma rua, e se evite a maior humidade, sendo que naquelas em que existisse falta de luz e ar se lhe fariam os «precisos condutores». Só irão para as enxovias os presos de crimes graves ou «atrozes», bem como os que isso preferirem por se encontrarem mais próximos da rua e assim ser mais fácil «obterem dali os socorros da caridade pública», contudo uns e outros deverão estar separados.

As salas e quartos superiores às enxovias se deveriam separar do seguinte modo: a parte mais saudável e apropriada do edifício deveria ficar designado para as enfermarias quer de homens quer de mulheres, de acordo com a opinião dos «facultativos». Dentro delas haverá uma divisão para as «moléstias contagiosas» e outra para as restantes; uma parte das salas será destinada a botica e «laboratório dos remédios»; na enfermaria das mulheres, que deverá estar do lado oposto à dos homens, deverão ser separadas as «honestas», das que o não são; deveriam também existir quartos para os detidos ou postos em custódia e para os «empregados da cadeia, que devem assistir continuamente».

As casas da prisão deveriam ser todas numeradas e o carcereiro apenas poderia enviar os presos para aquelas que lhe estavam designadas na ordem de prisão. Deveriam ser escolhidos «juízes das prisões» entre os presos mais bem «morigerados» e que deveriam ficar encarregados da polícia interna, em combinação com o carcereiro.

Os presos das enxovias sairiam duas vezes e os das salas e quartos uma por semana ao eirado, ou lugar mais arejado para receberem ar livre e horas próprias e diferentes para homens ou mulheres.

O carcereiro ficava encarregado de propor um quadro de «limpeza geral» da cadeia para ser aprovado e afixado nas suas paredes. Também indicará quais os meios de «prover à limpeza das latrinas», assim como «ao vestuário, e camas dos presos, absolutamente indigentes, e caldo, ou sopa da caridade», informando qual a repartição pública, por quem e de que modo costumavam ser providos. Por isso o carcereiro ficava responsável pelo desentupimento e limpeza das latrinas e os pavimentos lavados, velando também pela limpeza e lavagem dos presos que fossem nisso negligentes. (em 30 de Dezembro de 1833, por Francisco de Serpa Saraiva)

a Cadeia da Relação, na primeira metade do século XX


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Duas outras notícias, do mesmo jornal, de 11 e 28 de fevereiro de 1834 respetivamente


1ª) As pessoas que se julgassem com direito a reclamar as «barcas rebelas» e madeiras de castanho e flandres, que haviam servido na Ponte das Barcas, não sendo «comprometidos» nem rebeldes e justificando que eram sua propriedade e nada receberam por elas, tinham os próximos 15 dias para as reclamar, findo o qual seriam arrematadas, entrando o produto no cofre da ponte.


2ª) O juíz Pedâneo da freguesia de Santo. Ildefonso faz saber aos habitantes daquela freguesia que sendo, de utilidade publica, que a água dos tanques, se conservasse limpa e pura, como se achava determinado… e constatando-se por diferentes vias que muitas pessoas tinham o mau, prejudicial, e escândaloso costume de lavarem nos tanques públicos roupas e imundiceis; ficavam os comissários e cabos de Polícia da freguesia encarregados de olharem pela referida limpeza, e de prenderem, e trazerem à presença do dito juiz, toda e qualquer pessoa que, de qualquer maneira que fosse, tornasse suja e imunda a água dos tanques.


Uma outra, todas do mesmo ano e jornal, esta retirada do exemplar do dia 21 de agosto, onde é referido um navio que fazia a rota Lisboa - Porto, carreira onde viriamos a ter, poucos anos depois, o famoso vapor Porto a navegar. Tratava-se de um aviso ao público «que o magnífico navio movido por vapor Guilherme IV, continuará a fazer viagens regulares» entre o Porto e Lisboa. Os preços eram:

Na câmara da ré: 16$000 – na da proa 10$600, incluindo a mesa «que deverá ser escolhida» - no convés 4$800, sem comida. As crianças menores de 10 anos pagariam metade do bilhete. As criadas das famílias que fossem na câmara da ré, teriam acesso à mesma e pagariam 10$600. mas comendo com as restantes criadas «onde se lhes destinar». As cavalgaduras pertencentes a passageiros eram recebidos, a risco do dono, pagando 6$000 de passagem e os cães 480 réis, mas apenas com direito a água. Não eram recebidas mercadorias, apenas passageiros e suas bagagens, que excedendo 4 arrobas pagaria 40 rs. por cada arrátel «a maior» ou excedendo a medida de 3 pés cúbicos, 200 réis por cada pé de excesso.

O capitão só recebia a bordo pessoas indicadas pelo agente. Todo o necessário para acomodar os passageiros se acharia a bordo, inclusive uma dispenseira inglesa, na câmara das senhoras «que prestará toda a atenção às mesmas». «O capitão receberá toda a quantia de dinheiro em qualquer espécie, de prata, ouro, ou jóias, em embrulhos fechados e selados com lacre, pagando os donos 174 por cento de frete». Mais informações davam-se no agente, Archer & Miller, ao n.º 10 da Rua dos Ingleses.


Deixo-vos com uma última notícia, talvez chocante para alguns, sobre a dívida que o Estado tinha para com a cidade no rescaldo do cerco e da Guerra que entretanto terminara, uma vez que a notícia, é de 4 de dezembro. Esta questão será arrastada por alguns anos, procurando a câmara ser ressarcida do que despendera, quer em moeda quer materialmente com a dádiva de algum edifício, etc.

Assim, a câmara enviara à rainha um conta corrente e documentos justificativos da mesma pela qual mostrava ser credora de 11.048$300, «quantia esta proveniente de empréstimos gratuitos com que concorreu em dinheiro, e em géneros, para as urgências do Estado na época do Cerco». No conta corrente vem, além do empréstimo de dinheiro proveniente da Câmara diretamente, da extinta Companhia dos Vinhos, «do rendeiro do sal, sanjoaneiro e pescado seco», e também 1100 quintais de bacalhau entregues no Depósito do Departamento de Víveres em 5 de julho. Embora em setembro de 1833 já a câmara tivesse reclamado a devolução de parte do valor emprestado e como a mesma não fora possível satisfazer dadas as necessidades públicas da altura, vinha ela agora solicitar a reposição daquele valor pois que via progressivamente as suas rendas a diminuir e as despesas a aumentar. De facto, diz, só para os expostos eram necessários cerca de cinquenta contos de réis, valor simplesmente incomportável pelo que a despesa com aquela instituição aumentava desmesuradamente de mês a mês; e mais agora que necessitava de fazer despesa extraordinária com aquele estabelecimento quando nem para a despesa ordinária havia dinheiro!

Esta representação à rainha datava de 25 de outubro de 1834, e a notícia publica igualmente a portaria do Prefeito do Douro, de 27 de novembro, que informava que a requisição «foi mandada, por cópia ao Tribunal do Tesouro para ali se lhe dar a consideração que merecer».


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Estas e outras notícias mais comezinhas, espero vir a trazer-vos aqui, de quando em vez, em próximas oportunidades.

Viriato


Originalmente publicada n' A Porta Nobre em 02-04-2021

sábado, 22 de março de 2025

Demolição dos Ferros Velhos

No ano de 1904, os Ferros Velhos que se encontravam instalados no local onde hoje temos o quarteirão das Carmelitas, foram demolidos de forma a dar lugar às ruas Galerias de Paris e Cândido dos Reis. Juntamente com eles desapareceu também o complexo do convento carmelita feminino, que anos antes havia sido comprado pela município ao Estado. Para memória futura, aqui transcrevo um parágrafo do relatório que Pinto Bessa apresentou em Câmara em 1874, referente a esta compra:

«A aquisição do convento e cerca das extintas carmelitas, era uma pretensão muito antiga desta municipalidade, e por diversas vezes haviam as câmaras transatas pedido ao governo aquele prédio como compensação de uma antiga dívida da nação ao município, ou ao menos que fosse posto em praça: adotado pelo governo este segundo alvitre, foi o convento e suas pertenças posto em praça no dia dez de março de 1873, sendo arrematado para a câmara pela quantia de 48:001$000 reis.» (via O Jornal do Porto de 7 de março de 1874)


A fotografia que coloco abaixo é um aspeto da demolição do convento e anexos colhida d' O Tripeiro. Mesmo sendo de má qualidade é extremamente interessante pois nela encerra um dos parcos registos fotográficos do convento das Carmelitas, um dos últimos a surgir no Porto com a fundação remontando apenas a 1702 no sítio do Calvário Velho.

Na imagem, tirada da rua das Carmelitas (o fotografo deu as costas à igreja dos Clérigos) surge-nos: 1) Restos de um muro; no extremo direito vemos ainda parte da parede da cerca carmelita; 2) Barracões que pertenciam à Cozinha Económica; 3) Edifício do convento; 4) Capela-mor da igreja (onde estiveram primeiramente alojados os Armazens da Capella, daí o seu nome).


A imagem abaixo pertence a um postal disponível no AHMP que nos mostra o edifício para onde depois da demolição da igreja se transferiram os Armazens da Capella. Sendo uma imagem já reconhecível pelos portuenses da atualidade, permite-nos situar melhor o local da foto acima, através do muro que aparece em ambas. A área deste desnível veio a dar lugar aos edifícios do lado nascente da rua Cândido dos Reis. Hoje, o mesmo local completamente transformado é o epicentro da chamada movida do Porto.

Finalmente na imagem abaixo, também ela proveniente de um postal, vêm-se os telhados dos barracões da Cozinha Económica (2), o convento carmelita (3) e um edifício que julgo ser o da Livraria Chardron depois Livraria Lello & Irmão, na fase inicial da sua existência ainda sem o segundo andar (5).


Viriato


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NOTA: Publicação originalmente colocada a 11 de novembro de 2011 n' A Porta Nobre, depois revista, aumentada e recolocada naquele blog em 8 de agosto de 2017.

sábado, 15 de março de 2025

Como nasceu a capela do rei Carlos Alberto

Para a história desta capela, concorrem dois interessantes comunicados que surgiram  no jornal O Comércio (primeiro nome de O Comércio do Porto). Muitos destes comunicados eram acusações e contra acusações, pessoais ou não, sobre um determinado tema, facto ou ação quer individual quer coletiva... Mas entremos no assunto, que é longo mas apaixonante!


O primeiro comunicado saiu a 11 de Setembro de 1854 e não ia assinado

«A importância da cidade do Porto é toda comercial e a cidade mesmo em si, não encerra monumentos grandiosos, fontes elegantes ou estátuas que imprimem um cunho de grandeza a um centro de população e fazem admirar a estrangeiros.

Está-se construindo agora no Largo da Torre da Marca, uma capela em memória do herói italiano, o rei Carlos Alberto, mandada fazer pela princesa, sua parente, que há pouco aqui esteve. Consta-nos que quando ela tratou mandar construir a capela, chamara vários arquitetos para lhe darem planos mas parece que afinal dera um esboço da obra, ao mestre pedreiro, encarregado da fiscalização dela, o arquiteto sr. Pedro d' Oliveira.

Custa-nos a crer que se deixe um mestre pedreiro presidir aquela edificação, sem plano algum regular e conveniente; por isso lá vemos nas traseiras da capela que nos dizem gótica, duas janelas de feitio das de qualquer casebre moderno! As paredes laterais em lugar de pedra lavrada vão ser rebocadas exteriormente com cal, o que denota pobreza e mau gosto.

Pedimos por tanto à Ex. Câmara, como zeladora do aformoseamento da cidade, que dê a este negócio a devida atenção, se não quiser ver no largo da Torre de Marca um edifício sem beleza regular, nem harmonia, em fim um outro drop, mas de pedra.

Não somos mestre pedreiro, e pouco nos importa que quem justou a obra, ganhe muito ou pouco, falamos porque hoje em dia é preciso falar e porque estamos cansados de ver obras tristes e azangadas.»

A capela de Carlos Alberto abraçada pela vegetação dos jardins do Palácio de Cristal. Notar que aquando da sua construção toda a envolvente era um enorme descampado, conforme se vê numa imagem mais abaixo. A vegetação ajuda por ventura a disfarçar os aspetos menos elegantes daquele monumento (foto do autor).

Esta estória não acabou aqui. Uns dias depois o arquiteto Pedro d' Oliveira respondeu no mesmo jornal, num longo artigo que ilustra muito bem o modo como esta capela foi idealizada e construída, através de um longo comunicado que o jornal publicou na integra ocupando quase uma página completa (numa altura em que os jornais tinham geralmente quatro). Apesar da extensão do mesmo, penso que terá interesse histórico para nos apercebermos como aquele singelo monumento foi erguido, há mais de 160 anos atrás.


«29 de Setembro de 1854,

Srs. Redatores,

Um comunicado que VV. transcreveram no seu periódico de 14 do corrente, relativo à capela que se está construindo no largo da Torre da Marca, em memória do rei Carlos Alberto e no qual figura o meu nome, me obriga a dar algumas explicações, a fim de repelir de mim toda a responsabilidade pela sua arquitetura o gosto adotado para as quatro faces da capela tanto exterior como interiormente. Principiarei narrando o que comigo se passou a tal respeito.

Logo que chegou a esta cidade a princesa, parente do rei Carlos Alberto, fui convidado para comparecer em casa de sua alteza a fim de ser ouvido e consultado relativamente à construção de uma capela, que em memória ao mesmo rei ela pretendia mandar fazer, e sendo apresentado pela mesma pessoa que em nome de S.A. me tinha convidado, tive a honra e satisfação de falar com a princesa e de ouvi-la a tal respeito. Nesta ocasião mostrou-me S.A. um risco, que tinha sido feito em Lisboa, porém não o achando a seu gosto convidou-me a que eu fizesse um novo risco, dando-me para isso todas as instruções que julgou precisas, e todas aquelas que lhe exigi.

Passados alguns dias e quando me achava tratando dos riscos da capela, recebi de sua alteza uma pasta com uns riscos feitos a lápis por S.A. acompanhados de uma carta da pessoa que me havia apresentado, na qual se me pedia o orçamento da despesa da Capela, cujas dimensões eram as mesmas da que se está construindo, segundo os riscos que se me enviaram. Posto que os mesmos nada mais fossem do que uma ideia geral da frente da capela - planta baixa, secção transversal e longitudinal, ou por outra uns esboços, nem por isso deixei de satisfazer ao que se pedia, remediando as omissões, ou falta dos ditos riscos, segundo melhor me pareceu e julguei conveniente, tendo em vista que os lados exteriores da capela, e frente da traseira ou costas da mesma, deviam estar em harmonia com a frente principal indicada no risco, pois que para os outros três lados não havia risco algum. Neste sentido orcei toda a obra da capela, exceto a da tribuna, que talvez tivesse de ser de mármore, e remeti a sua alteza o orçamento.

Se a fachada (1) da capela anda mostra alguma beleza e harmonia, o mesmo não se pode dizer das suas traseiras (2), feita toda ela ao sabor do gosto do mestre pedreiro (fotos do autor).

Quatro dias depois disto compareci em casa de sua alteza com o projeto da capela riscado por mim na melhor forma, que entendi, e segundo as instruções que de sua alteza tinha recebido, apresentando planta da frente principal, planta das costas da capela, e lado, planta baixa e secção transversal e longitudinal da mesma. Nessa ocasião estava também presente o vice-cônsul da Sardenha o Ilmo. Sr. Paulo Rodrigues Barbosa, o qual viu que a sua alteza não desagradou o meu projeto, e que, somente observou as maiores dimensões que ele tinha em relação ao que ela pretendia, no que respondi, - que tinha riscado a capela como entendi, porém que se alguma coisa não agradava a sua alteza, que se lhe fariam as alterações que quisesse, e que quanto às maiores dimensões era isso fácil de remediar, reduzindo o projeto ao tamanho que se quisesse, no que S.A. concordou.

Apesar do risco da frente da capela, que eu tinha riscado, não ser um trabalho perfeito e definitivo, contudo juntou-se ao requerimento, em que S.A. pedia licença à câmara municipal para a construção da capela no largo da Torre da Marca, sendo o Ilmo. Sr. Paulo Rodrigues Barbosa encarregado de o apresentar à câmara para ser aprovado e ver o que a câmara decidia a tal respeito, o que me consta logo fizera pois que neste mesmo dia era o da sessão ordinária da câmara. Combinou-se por fim que S.A. iria, um dia ao local da Torre da Marca para ver se preferia o terreno público para a edificação da capela, ou o terreno particular que por certa pessoa lhe fora oferecido para o mesmo fim; dizendo sua alteza que eu seria avisado para comparecer, quando fosse designado o dia. Nesta inteligência, e tendo concluído o fim a que fui a casa de S.A, retirei-me, esperando o aviso do dia em que havia de comparecer.

É certo que nunca recebi tal aviso, mas também é certo que alguns dias depois desta última entrevista com sua alteza - foi a câmara municipal com S.A. em vistoria ao local indicado, acompanhada, segundo me consta, de S. exc.ª  o Sr. Barão de Valado, governador civil, cônsul francês e outras pessoas, e por essa ocasião designaram para a colocação da capela o terreno em que a mesma se está construindo, também é certo que depois da minha última entrevista com sua alteza, em que se passou o que referi, foi convidado o meu amigo e colega o sr. Joaquim da Costa Lima Júnior, para falar com sua alteza e fazer um plano da capela projetada. Sei que ele tratou disso e apresentou a sua alteza o que julgou conveniente e acertado, porem quando justamente se tratava de resolver sobre o definitivo plano da obra ou de discutir o plana do sr. Costa Lima foi contratada a obra da capela pelo mestre pedreiro Lopes, que a anda construindo pela quantia que, de certo, e a estas horas o público não ignorará sobre as condições que se apresentaram e assinaram de parte a parte.

Em vista, pois, do que se passou, depois da minha última entrevista com sua alteza, e não se me tendo dito mais coisa alguma a tal respeito, pelo que me constava, fiquei na persuasão,de que a capela, que fora logo principiada, era construída segundo o risco apresentado pelo Sr. Costa Lima,e nesta ideia vivi por bastantes dias, e até às vésperas da saída de sua alteza para a Foz para embarcar no primeiro paquete, quando então certo de que mais não se incomodariam comigo para tal fim, recebi um recado para ir de novo falar com sua alteza, o que apesar de todos os pesares, não deixei de fazer. Disse-me então sua alteza que pretendia que eu lhe fizesse um orçamento de certas obras da capela, que não tinham entrado no contracto feito com o mestre Lopes; como eram a tribuna, o passeio de pedra que deve circuitar a capela, e outras mais; - ao que me prontifiquei, pedindo me fosse dada uma relação por escrito dessas obras, o que sua alteza fez, satisfazendo eu pela minha parte como me foi pedido. Depois de largamente conversarmos a respeito da capela, disse-me sua alteza se eu teria dúvida em aceitar a fiscalização da obra da capela pela sua parte, e surpreendendo-me tal proposta, observei a sua alteza que nenhuma dúvida teria, mas que era melhor encarregar disso o sr. Costa Lima, visto ser ele o autor do plano, que se estava seguindo. S.A respondeu-me que o plano não era o dele, e que se eu não tinha dúvida em aceitar a proposta, no dia em que eu fosse entregar o orçamento que me pedia das obras, me falaria a tal respeito definitivamente. Justamente no dia em que sua alteza foi para a Foz, esperando ai embarcar no próximo paquete, fui entregar o orçamento pedido, e então me perguntou sua alteza definitivamente se eu estaria concorde em aceitar a fiscalização da obra da capela pela sua parte; respondi que aceitava a proposta, mas que era conveniente que sua alteza por escrito me indicasse quais as obrigações que eu tinha a cumprir e me pusesse ao facto do contracto da obra, para poder conhecer até onde a mesma obra satisfazia ou apresentava vício ou defeito, sendo aquele o documento com o qual eu devia apresentar-me ao mestre pedreira, exigindo dele o cumprimento do que tratara.

S.A. disse que eu me devia entender com o cônsul francês, a quem informaria de tudo, sabendo ele já que eu ficava encarregado de fiscalizar a obra, e que independentemente do papel que eu exigia e que me iria mandar, diria ao mestre pedreiro o mesmo que tinha dito ao sr. cônsul francês. Ora, sem querer saber se S.A. disse ou não a tal respeito alguma coisa aos indivíduos referidos (que me parece e consta que dissera), o que é certo é, que esse documento que eu exigi não o recebi. Pelo criado de S.A., que viera a minha casa entregar um livro de sua parte, lhe mandei eu dizer que estava esperando pelo documento que ficara de me mandar.

Neste pormenor de uma vista da cidade vê-se a capela (1) praticamente isolada no descampado a que se dava o nome de largo da Torre da Marca, onde durante séculos existira aquela baliza para a navegação. Os terrenos foram depois incorporados nos jardins do Palácio de Cristal (assinalado com o n.º 2) e são atualmente tudo o que resta do binómio Palácio+Jardins.

S.A. embarcou e o papel que eu exigi não apareceu; por tanto entendi que não devia ir fiscalizar a obra da capela sem um documento passado pela devida pessoa que me autorizasse a fiscalização.

Nestas circunstâncias foi correndo a obra, até que há pouco mais de um mês recebi um recado para que me dirigisse ao sr. cônsul francês, que tendo recebido instruções de S.A. a respeito da obra, nas mesmas se mencionava o meu nome como encarregado por S.A. da fiscalização, e que ela exigia que, procedendo o sr. cônsul a uma visita à obra na minha companhia, ela fosse informada circinstanciadamente do andamento e estado da obra, na persuasão de que eu, apesar da falta de autorização por escrito para fiscalizar a obra, ainda assim a fiscalizara. Por esta ocasião expus à pessoa que se dignou dirigir-me o recado o que comigo e S.A. se tinha passado nos últimos dias da sua estada aqui. Apesar de tudo, disse-me essa pessoa, que ainda assim S.A. estava certa, segundo o conteúdo das cartas que tinham vindo, de que eu fiscalizava a obra, e que por isso apesar de não ter ido à mesma obra, fosse falar com o sr. cônsul francês para se combinar no dia da visita. Assim o fiz, e por esta ocasião expus ao sr. cônsul as razões referidas, que me tinham impedido de fiscalizar a obra por parte de S.A., ao que S. S.ª respondeu que embora assim sucedesse devíamos fazer-lhe uma visita para informar S.A. do estado da obra da capela, na forma de sua exigência, ao que prontamente anuí. Marcamos o dia da visita para uma sexta-feira às 6 horas da tarde, e nesse dia ai fomos, indo também o illmo. sr. padre Peixoto, convidado pelo sr. cônsul, e o mestre pedreiro. Foi então que vi o verdadeiro estado e andamento da obra e o plano que servia de regulamento para a mesma que é, sem dúvida alguma, feito por S.A. e por ela está assinado, compondo-se só de um risco no gosto gótico, para a frente principal, planta baixa e secção transversal e longitudinal da capela, tudo feito à lápis. É mais um esboço ou ideia geral, do que um rico definitivo para uma obra de tanta circunstância come aquela.

Encontrei a obra em quanto à frente principal feita até à altura de dez palmos com mui pequena diferença, em quanto às faces laterais, em maior altura; quanto à frente das costas da capela, achava-se já feita a pequena porta de entrada e pequenas janelas de luz do pavimento térreo, e montados os peitoris das janelas do pavimento superior, que há-de ficar sobre a sacristia da mesma, e quanto ao interior achavam-se já assentes algumas bases da colunas que tem de formar as naves, e principiada a parede que deve dividir o corpo da capela da sacristia.

Nesta ocasião observei que, não havendo risco que regulasse a forma da frente das costas da capela, fora esta imaginada, ou feita ad libitum e a gosto do mestre pedreiro, assim como as frentes laterais da mesma capela, não havendo tanto entre estas como entre a frente das costas da mesma, nenhuma semelhança ou harmonia com a frente principal, e são mais um contraste do que outra coisa; além da frente das costas da capela ser de um gosto muito ordinário e muito vulgar.

Quanto ao interior é certo também que as proporções das colunas e mais peças da obra, são da mão do mesmo mestre, que neste caso, vista a falta de esclarecimentos, obrou como quis ou entendeu.

Achando-se pois a obra neste estado, e vistas as circunstâncias expostas, entendi que a minha missão se limitava a examinar a segurança, e boa construção da obra, e quanto ao mais, como os riscos não supriam a falta de explicação no contracto nem este as omissões dos riscos, nenhuma observação fiz a tal respeito, naquela ocasião, mas nem por isso deixei de o observar a certa pessoa, que bastante interessa tem tomado neste negócio da capela, a qual à minha observação respondeu: Que isso agora era mau, que iria levantar uma grande poeira, e que melhor seria entender-me com o mestre pedreiro; eu entendi de outra forma, que foi calar-me, e nada dizer a tal respeito: porque se tal observação fizesse ao mestre pedreiro, ele decerto se oporia a demolir a obra para a fazer de outra forma, e em relação com a frente principal, dando às colunas e bases as devidas proporções, sobretudo quando o risco de uma obra o deixa variar a sua vontade, como agora acontece, e o contracto não supre alguma falta.

Instigado pelo comunicado que VV. transcreveram no seu periódico, sou obrigado, para crédito meu, a mostrar que nada tenho com o bom ou mau risco da capela que se está construindo; para prova do que, faço a referida exposição singela e franca de tudo que comigo se tem passado, a tal respeito, a pedindo a VV. se serviam mandá-la transcrever no seu periódico.

Setembro, 27 1854

Pedro d' Oliveira »



Com este comunicado, pretendia Pedro de Oliveira limpar o seu bom nome de profissional de um projeto que, a julgar pelo que descreve, foi mal conduzido desde o início, acabando por dar origem a um como que "patinho semi-feio". Não se entende o pedido a dois arquitetos da cidade para elaborarem o projeto da mesma e posteriormente ambos serem descartados a favor dos primitivos esboços que deveriam apenas servir de base de maturação para um traçado estruturado e capaz da mesma.


Em relação à construção desta capela, houve aqui qualquer coisa muito mal contada; no mínimo muita descoordenação! E assim ficamos com aquele pequeno templo que eterniza a memória do rei Carlos Alberto que passou os seus últimos dias no Porto em 1849, um templo feito todo ele praticamente pelo seu mestre pedreiro e quase a seu gosto, onde nenhum projeto parece ter sido verdadeiramente seguido...

Viriato

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Nota: Esta publicação aglutinava e melhorava as originalmente publicadas n' A Porta Nobre em 24 de novembro e 5 de dezembro de 2012, tendo sido republicada no mesmo blog como aqui se encontra, em 23 de fevereiro de 2018.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

As últimas casas 'manuelinas' do Porto

Sabem os meus leitores assíduos que volta e meia costumo referir os escritos de Henrique Duarte Sousa e Reis, indivíduo que legou à cidade uns manuscritos compilados por si e a que deu o título de Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, que nos prestam muitas e variadas informações sobre a cidade do seu tempo, algumas delas únicas. Desses manuscritos quatro foram já publicados, mantendo-se três por publicar(1). Tive oportunidade de recolher alguma informação do seu 5º volume (o primeiro não publicado) e é dele mesmo que transcrevo o texto abaixo. São apontamentos singelos mas preciosos sobre dois edifícios que deixaram de existir nos meados do século XIX e que o autor ainda conheceu(2). Tratavam-se de dois exemplares de arquitetura habitacional manuelina, os únicos ou os últimos resistentes na cidade, cujos congéneres ainda se podem encontrar em várias localidades de Portugal, nomeadamente nas de pequena e média dimensão, não tão sujeitas à pressão urbanística.


Eis o texto:

«Recordação das casas da rua da Alfândega e da rua da Ferraria de Baixo, a que chamam do Patim; cujas edificações eram antiquíssimas e bem é de crer fossem nesses tempos os palacetes mais nobre desta Cidade do Porto(3).


DEMOLIÇÕES

A casa n.º 7 situada na rua da Alfândega desta cidade à esquerda de quem desce, era talvez uma das mais antigas casas nobres do Porto, e edificada poucos anos antes daquela chamada a dos do Patim, e que estava assente logo no princípio da rua da Ferraria de Baixo ao descer de S. Domingos, e também ao lado esquerdo, porque eram quase iguais na arquitetura, tendo ambas os mainéis das janelas e portas não só circulares na parte superior delas, mas todo o seu vivo rebaixado, e nele em alto relevo lavradas contas e flores.

As mudanças que em tão poucos anos tem havido nesta nossa cidade do Porto me instiga, a como sei e posso faça as lembranças ocorrentes daquelas, que durante a minha vida presenciei, e assim ache algum curioso nestes apontamentos algum instante, em que se recreie, assunto para partirem[?] as suas ideias, ou motivo para tirarem alguma dúvida sobre a localidade e forma de tais edifícios; destes dous farei a descrição se não minuciosa ao menos clara.

i1 fotografia da casa no Terreiro da Alfândega sobre a qual nos fala Sousa Reis. A janela de canto assinalada ainda existe, na quinta da Aveleda em Penafiel


Constava a casa da rua da Alfândega de três faces ou frontarias exteriores e visíveis, porque parte da primeira, e toda a voltada ao lado do nascente estavam encravadas no edifício da Alfândega de forma tal, que daquela que olhava para o norte ou embocadura da rua logo ao descer da dos Ingleses(4), apenas se via cousa de 12 palmos(5) saliente, e tantos importava, o que ela obstruía a referida calçada da Alfândega, e foi agora demolida para facilidade do trânsito, e da outra fachada do nascente nada se alcançava pela razão acima dita; nestas faces não havia obra alguma mais que paredes lisas, o que assaz prova ter estado esta parte saliente e visível igualmente encoberta e encostada a outras casas antes da fundação da fachada da repartição da Alfândega, que é natural recuasse esses 12 palmos para alargar a rua do mesmo nome, que com este estabelecimento deveria ser muito concorrida, sendo até aí estreitíssima como testemunha esse grande avanço que esta propriedade tinha. Essa rua estreita foi em antigos tempos chamada rua do cunhal de S. Francisco, se não houve engano em um documento, que vi, respetivo a esta casa, que descrevo.

Na frontaria da parte do oeste tinha praticada, mui próximo ao cunhal do norte, uma porta e a seu par uma janela engradada de ferro de grandíssimas dimensões, e tão lisamente feitas, que bem mostravam ter sido abertas assim para corresponder às janelas centrais dos dous andares da fachada principal virada ao sul, com quem diziam perfeitamente no talhe, porém em lugar de serem arcadas eram direitas as padieiras, e todos os mainéis com elas mostravam cortado e em meia cana saliente e filetes(6) nas margens, os seus vivos, de forma tal, que bem poderia julgar se foram elas obras mais modernas, se isso fora possível: desvaneios do arquiteto, ou gosto variado do dono da propriedade.

i2 aqui a casa foi já quase totalmente demolida (resta uma parte da fachada, entaipada, à dir.) encontrando-se em construção o edifício que hoje alberga o Arquivo Municipal do Porto. Vê-se ainda, espalhada pela rua, pedra talvez resultante da demolição para reutilização no novo edifício.


Esta parte dava entrada geral para este palacete, pois assim se podia chamar, porque naqueles tempos decerto podia; e devia ser considerado.

A fachada principal como já disse era voltada para o sul, e em sua frente ficava-lhe o espaço chamado o Terreiro, e compunha-se de dous andares, sobre três portas baixas abertas em forma circular como que formando no centro um bico, e muito natural é, serem dentro delas os cómodos dos criados e cavalgaduras; que os primitivos habitantes e edificadores desta propriedade pela sua posição social careciam: eram extremamente acanhadas estas portas, correspondiam-lhe logo superiores no primeiro andar três janelas de sacada com varandas de ferro, sendo a do centro mais elegante porém singela no lavor como a porta principal da entrada e a janela contígua, que já descrevi, e as duas laterais sacadas posto que mais baixas e estreitas eram todas cobertas de florões tão salientes e tantos, que topavam com as soleiras das sacadas do segundo andar, que lhe ficavam por cima, igual em construção, gosto, dimensões e adornos, e só diferia em conter demais junto ao cunhal da parte do oeste ou fronteiro a capelinha do Terreiro um como mirante ou miradouro ricamente adornado e feito em tal gosto, que era o único no seu género nesta cidade, e por essa singularidade não me pouparei a fazer distinta descrição dele.

A cornija(7) que cobria este miradouro foi construída debaixo da mesma linha, que a geral das três fachadas; sobre o cunhal da casa, que ficava inteiramente partido e rematado no nível do pavimento do segundo andar, em que esta obra era montada, se levantara um peitoril de pedra para o lado da rua da Alfândega, e outro para o do Terreiro, e na esquina ou juntoura deles, e na linha perpendicular e a prumo do referido cunhal pousava uma mui delicada e bem trabalhada coluna de pedra que sustentava as duas padieiras formadas por grandes roscas[?] e retorcidos de veias ou listões de pedras, e a cornija acima indicada.

Estes peitoris, a parte que distava das padieiras à cornija, e os lados exteriores deste miradouro eram enriquecidos com tarjas de flores, folhas, pomos e arabescos fantasiados tão bem lavrados em pedra, e ainda que era antiquíssimo aquele trabalho, tinha na ocasião da demolição valor excessivo pelo seu muito merecimento.

Diz-se que quando a Rainha Dona Filipa de Castela(8) atravessou o rio Douro para nesta cidade se casar com el-rei D. João 1º de Portugal, que em Évora se achava, de cujas festas faz larga menção D. Rodrigo da Cunha na Crónica deste rei a fl. 241(9) várias autoridades esperaram a real noiva neste palacete, e algum tempo de se demoraram no miradouro descrito, por serem dele facilmente descobertas as embarcações, que deveriam fazer o cortejo da nova soberana portuguesa. Tão memorável e rica peça foi no ano anterior de 1855, apeada não só pelo estado ruinoso do restante edifício, e causou as vistorias de 5 de Julho de 1848 e outras mais, como por estar essa parte dele estreitando o caminho tão precioso para a contínua servidão da Alfândega desta segunda capital.

Pertencia esta propriedade a Manuel Guedes da Silva da Fonseca, e em seu vínculo estava incorporada, razão esta porque tinham sido infrutuosos todos os esforços que a câmara muitos anos e repetidas vezes fizera para levar a efeito esta demolição a qual conseguiu ultimamente por pacto amigável com seu possuidor, a quem pagou a quantia de R 1:700$000 só pela parte adiantada do alinho da casa da Alfândega, mas o vendedor tal preço fazia deste miradouro, que no contrato o reservou para si; e todas as pedras de que se compunha foram cuidadosamente apeadas e recolhidas à sua habitação nobre sita na praça da Batalha, para em tempo e lugar oportuno talvez colocar este chefe[?] de arquitetura antiga.

i3 o local em 2019 numa foto do autor (comparar com a i1)


Não era por certo muito mais moderna a edificação da famigerada casa dos do Patim(10), pertencente à família de Van Zelleres acreditados negociantes desta praça, a qual já disse, onde era situada, porém como seja necessário descrever-lhe os acessórios para melhor se compreender a descrição da mudança, que se fez nessa parte da cidade, com eles me vou entreter um pouco.


Todos sabemos, onde está situada a caixa filial do Banco de Portugal, cujo edifício nos assegura, que muitas gerações conhecerão no futuro ser ele parte do convento dos religiosos de S. Domingos, e assente ao sul da rua deste nome, pois saibam também os vindouros, que ao cunhal do poente desta casa estava ligada a igreja dominicana, e seu frontispício coberto de pilastras, com um historiado óculo de vidraças, era rematado por floreadas pirâmides de pedra, e tudo se estendia para a mesma parte do poente, e de tal forma que apenas ficava a distância de uma mui estreita viela entre este templo, e as casas, que por este mesmo lado ficavam fronteiras, e ainda existem. Descendo-se por esta viela encarava-se em frente com um portão, que talhado na parede logo em face através da calçada, e seguia o alinhamento da parte do sul das propriedades da rua da Ferraria de Baixo; este portão dava entrada para a pequena cerca dos frades de S. Domingos, e nesse muro pegava a casa da família do Patim de tal arte, que parte dela se via, logo a embocar nesta viela.


Era a mencionada casa dos do Patim de dous andares, e em cada um havia rasgadas três janelas entre si distantes por grandes intervalos, sendo as do primeiro de sacada com engradamento de ferro e as de segundo de peitoril; três portas lhe correspondiam, porém desiguais na altura por ser a referida rua da Ferraria muito inclinada, não lhe obstando os rebaixes por vezes feitos, ainda é áspera a sua descida. Estas seis janelas tinham as padieiras arcadas, e os vivos dos mainéis rebaixados a meia esquadria: neste rebaixe eram levantadas folhas e pomos, que iam rematar em florões no centro superior de cada um das janelas, e às quais serviam de remate ou fecho, e haviam sido tão solidamente construídas todas as obras desta habitação apalaçada, que poderia ainda durar anos e talvez séculos, mas a necessidade era tal, a fim de que a cidade alcançasse fácil comunicação mais direita e curta, com a Alfândega e cais da descarga, que obrigou à Câmara Municipal a imaginar e levar a efeito pelos anos de 1836(11) a abertura da rua Ferreira Borges; e para isso forçoso foi demolir toda a igreja de S. Domingos de que apenas existem vestígios, arrasar o muro e portão da cerca, e parte das paredes do convento dos religiosos do mesmo santo, que todo ardeu durante o cerco da heroica cidade do Porto(12), e cortar na largura de uma janela a notável casa dos Van Zeller do Patim; o restante desta casa, passados anos foi comprada por um particular, para sobre seus alicerces levantar essa série de propriedades modernas, que bons alugueres lhe rendem.

i4 rua de Ferreira Borges: o traço verde indica até onde chegava a casa do Patim (a casa que a substituiu no gaveto com a rua do Comércio do Porto e presente na imagem, teve de recuar alguns metros para permitir a passagem da nova rua). O traço azul indica o local onde se encontrava a igreja dos Terceiros de S. Domingos, cuja demolição constituiu a 1.ª fase de abertura da rua Ferreira Borges. Finalmente o traço vermelho indica, aprox., o local onde se encontrava o portão de acesso à cerca de S. Domingos.


Seguiu-se para completa abertura desta nova rua, a demolição de uma grande propriedade de casas de três andares, situada na rua nova de S. João(13), e fronteira à paroquial igreja de S. Nicolau pertencente a Vicente Ferreira de Novais, e logo nela se levantaram para embelezamento de tão cómoda passagem o majestoso edifício da Bolsa, ou praça do Comércio, em que se converteram os magníficos restos do incendiado mosteiro de S. Francisco, e a par desta a segura casa do Banco Comercial do Porto, que cada uma em seu diverso gosto arquitetónico mostram haver nesta cidade operários e mestres tão peritos como nessas capitais da Europa, onde tanto se ostentam os bem delineados riscos, e sumptuosas execuções.»

i5 a casa do Patim aparece nesta, algo estilizada, imagem pela pena de J. Holland (1836). Há época a rua ainda se encontrava longe de estar concluída, vendo-se o murete onde viria a ser erguido o edifício agora pertencente ao Instituto dos Vinhos do Douro e Porto bem como aberta a rua da Bolsa.


Viriato


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1. Manuscritos que merecem nova e integral publicação com a ortografia atualizada e com notas sobre a mesma quando necessário. Esse trabalho merecia igualmente ser acompanhado de vários comentários, pois, como em todas as obras de vulto, por vezes o autor erra.

2. Quando o edifício do Patim foi demolido, Sousa Reis contava 25 anos de idade. Quando o mesmo aconteceu ao da rua da Alfândega, ia já perto dos 60.

3.  Poderá haver aqui algum exagero de Sousa Reis. Estas casas seriam as únicas que haviam chegado aos tempos modernos, tenho para mim que mais existiram anteriormente, sofrendo o azar de serem demolidas em tempos em que este tipo de edificações não era valorizado artisticamente.

4. Hoje rua do Infante D. Henrique.

5. Aprox. 2,60m.

6. No texto parece estar escrito efiletes.

7. Onde o autor escreve coronigem, substituí por cornija.

8. É lapso por Lencastre. Seja como for, esta casa é bem posterior ao Mestre de Avis.

9. Algum confusão aqui há. D. Rodrigo da Cunha não escreveu a crónica do rei D. João I mas sim o Catálogo dos Bispos do Porto. Nesse trabalho, a pp. 241 surge o traslado de um documento que descreve a cerimónia de assento da primeira pedra do convento de Santa Clara, onde D. João I participou, mas sendo já rei. Quem escreve a crónica do rei é Fernão Lopes.

10. A casa dos do Patim. É necessário ter presente que a palavra patim nada tem que ver com o nome de uma família, antes do lugar onde ela foi construída que era em patamar.

11. Na verdade a rua Ferreira Borges foi uma iniciativa da Associação Comercial do Porto, e foi iniciada em maio de 1835.

12. Num outro manuscrito, que não pertence a esta série, diz o mesmo autor: «1 de junho [de 1835]. Neste dia principiou-se a demolição da igreja pertencente ao extinto convento dos religiosos domínicos, para abertura da rua Ferreira Borges». Segue logo abaixo, a letra diferente, mas do seu punho: «Era este templo grande porém escuro, e o seu frontispício de bela arquitetura e todo e pedraria lavrada, porém como a rua de S. Domingos é estreita e a mesma igreja sobremodo apertava a rua da Ferraria de Baixo, ambas vinham a ser escuríssimas; se por um lado pois melhor (sic) a cidade e a localidade pela demolição e abertura de mais uma via de comunicação, por outro perdeu-se mais um bom edifício, cujo remate cheio de pirâmides lavradas atestava o gosto nas obras de edificação, e a religiosa veneração deste povo por tudo, quanto diz respeito à religião católica».

13. Lapso por rua dos Ingleses, hoje rua do Infante D. Henrique. É possível que esta casa fosse também ela, na sua origem, manuelina. Era uma casa foreira ao mosteiro de S. Francisco, tendo sido originalmente erguida por Manuel Cirne, feitor na Flandres. A despesa de expropriação desta casa foi, em abril de 1835, avaliada em 10.200 reis.

Publicado originalmente n' A Porta Nobre em 22 de março de 2020

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