Ramalho e o mosteiro
No final do século XIX a cidade tratava já de construir a sua estação central de caminho de ferro em S. Bento, estação que, não apoucando esteticamente o lugar, roubou o nome e o espaço a um monumento irremediavelmente perdido: o complexo monacal de S. Bento mandado erguer pelo rei Manuel I em 1518. Foram várias as vozes que se levantaram à época contra a catástrofe, mas nada pode obstar a cegueira devoradora (ontem e hoje, quando um governo toma uma decisão de destruição, ela torna-se quase sempre escrita na pedra!).
Mas houve uma voz, uma conhecida voz, que não foi da mesma opinião. Falo de Ramalho Ortigão, que numa missiva enviada à rainha D. Amélia em 6 de outubro de 1896, opina desta forma:
«(...) Em vez de estabelecer a estação central dos caminhos de ferro do Porto no lugar que se escolheu, teria sido de certo mais sensato optar por lugar em que não houvesse de se demolir uma igreja para edificar uma gare. Esse plano foi porém aprovado, e para o concluir acham-se feitas obras importantes e mui dispendiosas. O extenso túnel que une Campanhã com o largo da Feira de S. Bento está feito, e abre a sua profunda boca para a igreja, que tem fatalmente de devorar, porque ainda aproveitando o espaço ocupado pela igreja, a gare ficará pequena. Não havendo meio de salvar a Igreja sem uma perda enorme de tempo e de dinheiro resta considerar se a conservação desse edifício no lugar em que se acha vale a pena de um tal um tal sacrifício, ao qual a população do Porto se não sujeitaria sem os mais clamorosos protestos. Respondendo a este ponto, eu digo sinceramente a Vossa Majestade que a importância arqueológica do monumento de que se trata está bastante abaixo do conflito que suscita. O grande e sumptuoso templo da fundação do rei D. Manoel, desapareceu inteiramente devorado por um incendio»
no AHMP podem-se encontrar algumas imagens desta igreja . a que apresento acima, identificada como sendo da sacristia, toda me leva para o coro alto...
Ora aqui o leitor já adivinhou, ou quase, pois podia tratar-se de ironia, qual a opinião de Ramalho Ortigão em relação à igreja. Ressalve-se contudo, que logo no início do parágrafo o autor parece estar completamente contra a escolha do local. Mas prossigamos na transcrição: «A igreja atual, construída no século passado é, em todos os pontos de vista, banal! O seu arquiteto, que era da aldeia de Santa Cruz do Bispo e recebeu 120 mil reis pelo seu risco*, era um mestre de segunda ordem, ao lado d’outros que na mesma época trabalhavam no Porto. A arte amovível que a igreja encerra é também de pouco interesse. A pintura dos retábulos é incaracterística. Um sofrível arcaz na sacristia, solido cadeiral de boa marcenaria em madeira do Brasil no coro, uma curiosa moldura rococó num mau quadro representando a Santíssima Trindade, é tudo quando lá se encontra. (...) Dá-se demais um facto que responde a muitos escrúpulos, talvez a todos: a Confraria de Cedofeita, em cuja circunscrição há grande falta de igrejas, sendo pequeníssima a da paróquia, prontifica-se, sendo-lhe dada a pedra da igreja de Ave-Maria, a reedifica-la tal e qual ela está, em uns terrenos devolutos à rua da Carvalhosa.»**
O autor continua a sua missiva, apontando como a mais natural escolha da proteção da rainha, a igreja de Santa Clara. Ideia que não sendo sua, pois que partira do Centro Comercial do Porto em petição enviada para que ali se estabelecesse o dispensário, veio a originar o Dispensário Rainha D. Amélia. Ramalho prossegue uma boa parte da missiva explicando os lavores de arte do convento das clarissas assim como a paisagem que dos seus mirantes se podia fruir. Embora excelentes, essas descrições fogem já ao objetivo desta publicação.
capitel (?) da antiga igreja de S. Bento de Avé-Maria, hoje colocado nas traseiras da igreja nova de Cedofeita
Confesso que fiquei como que chocado com as observações de Ramalho Ortigão. Sempre me habituei a ver as imagens que o fotógrafo Alvão nos deixou sobre esta igreja, que parecem mostrar um templo merecedor de ser preservado. Como é de geral sabido, existiu, em 1893, uma proposta apresentada ao Ministro das Obras Públicas de então, Bernardino Machado, pela Irmandade de S. Bento de Avé-Maria do Porto; no intuito de salvar igreja da destruição, bem como a sua sacristia e outros edifícios anexos. Nada vingou.
Resta-me informar que a missiva de onde colhi estas notas surge transcrita n' O Tripeiro de outubro de 1954, um apud - termo prazeroso aos académicos - da obra O Grupo dos Cinco - Dramas Espirituais, por P. Moreira das Neves (1945).
Viriato
ӽӽӽ
* Manuel Álvares
** Curiosidade: foi nesta igreja de curta existência que casou a escritora Agustina Bessa Luís
NOTA: publicação originalmente colocada no blog a 4 de março de 2023.




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