Miragaia

Ah! Os cobertos de Miragaia... alguém hoje os consegue imaginar sem o grande bloco da alfândega a ocupar o local onde antes existiu o areal a eles adjacente? É esse cenário que o leitor poderá encontrar abaixo, nas linhas que transcrevo de um romance de Camilo Castelo Branco, intitulado Onde Está a Felicidade?


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«Era em uma noite, vinte e oito de Junho de 1845, véspera do milagroso apóstolo S. Pedro.

Sabes como, nesta religiosissima cidade do Porto, se festejam todos os santos da corte celestial, e particularmente Santo António, S. João e S. Pedro. Este, mais prestante que todos, pela importante missão de claviculário da bem aventurança, gloria-se de ser festejado anualmente na cidade da Virgem com uma porção fabulosa de estoiros, um inferno indescritível de fogueiras, e o consumo sobrenatural de pipas de vinho, fritadas de linguiça, postas de pescada, e bebedeiras sem cifra conhecida no Bezout.


o areal de Miragaia, quando ia sendo já preenchido pela sapata da do novo edifício da alfândega . à esq. a igreja de S. Pedro com origem numa ermida altimedieval, à dir. a porta Nova ou Nobre, peça constituinte da muralha do século XIV.


S. Pedro de Miragaia é incontestavelmente, de todos os Pedros santos o mais querido. Aquele espaçoso areal não basta para os jorros de povo, que afluem das ruas sobranceiras. Surgem, como por magia, as fileiras de lâmpadas variegadas; os mastros de palha e alcatrão, que fedem e abrasam; as orquestras militares, que consomem metade do tempo vozeando nas trompas estridulosas, e outra metade nas libações homéricas, fornecidas pela liberdade dos mordomos; as tendas, gratas à gastronomia suja da farrapagem, que as atulha, dando vivas ao santo, e praguejando obscenidades e insolências contra a taverneira tardia no ministrar da meia-canada por cabeça; finalmente, o areal de Miragaia é um misto de todas as regalias que entusiasmam o populacho, azando-lhe ocasião para que naquelas caras sobressaiam todas as linhas grotescas de uma alegria estúpida.

No longo quarteirão de casas, que se estende ao longo do arraial, vereis nessa noite caras insuportáveis, que o reflexo meio fantástico da iluminação vos afigura belas. Vereis outras, realmente belas, colocando-se de modo que a projeção tíbia da luz as favoreça, na exposição noturna, aclarando-as aos olhos do paciente amador, que passeia em baixo, sorvendo pelos pés a humidade da areia.

Entre estes, na mencionada noite, podíeis ter visto Guilherme do Amaral, só, com os olhos mergulhados além nas trevas do rio Douro, absorto, recolhido nesse esconderijo de tristeza, que o homem de algum senso íntimo leva consigo a toda a parte. Como ele, ajuizado desprezador desses júblios boçais, viera ter a Miragaia, não o saberia dizer. Achava-se aí, sem saber ao que viera, e sentia não ter asas de querubim ou de hipógrifo para transportar-se ao deserto da Líbia, ao pelo menos ao seu quarto da Águia d'Ouro.

a rua Arménia

Neste pensamento, cuja impossibilidade o incomodava, caminhou pela travessa escura e despovoada que se lhe ofereceu. Atravessou um beco de aspeto pavoroso e nojento trilho: desembocou em uma rua, que o conduziu a outra, na direção oposta da Água d'Ouro, para onde queria caminhar.

Achou-se bem, apesar do fétido nauseento que ressumava das fisgas das portas. Não via ninguém, ninguém o via, nem o mais ligeiro sussurro: era caminhar na escavação de uma rua de Pompeia, pela vista, e no aqueduto de despejos de uma cidade, pelo cheiro. O romanesco tem seus caprichos sórdidos. Amaral não trocava aquela atmosfera enjoativa por os perfumes de nardo e rosa do toucador de alguma das suas numerosas admiradoras.»

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Guilherme do Amaral é o personagem principal deste (e de outros) romances de Camilo. A rua aqui não especificada, mas que o autor mais à frente nomeia, é a rua da Arménia. Também o autor/transcritor destas linhas por ali passou nos seus melhores anos de meninice, a caminho da rua Nova da Alfândega, e também ele sentiu, ainda, como Guilherme do Amaral, o perfume nauseabundo de um saneamento tão antigo como aquele personagem, mas de isento valor arqueológico. O areal, esse é que já o não pode ver senão em fotografias antigas e granuladas; desaparecido que está há pelo menos cinco gerações.

Viriato

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