Qual Porto ?

Enquanto ia vendo uns programas televisivos que agora não vêm ao caso, em que um punhado de escritores arem conotados com as aldeias transmontanas ou beirãs onde nasceram, dei comigo a pensar que se fosse escritor de renome seria conotado com uma cidade: o Porto! Esta é a minha terra! É nela que reside a minha alma de menino.

Mas não é o Porto do séc. XXI, não! Nem mesmo o decadente Porto da sua primeira década… O meu Porto, é o último Porto, o que já morreu. nascido em 1123 e fenecido num qualquer crepúsculo invernal de 1998. Era aquele Porto que tinha gente dentro, a morar, mesmo que muitos em condições precárias (para não dizer pior…), mas era um Porto vivo. O seu sangue feito carne percorria-o em duas pernas, pelas suas ruas e ruelas acima e abaixo. Eram os MORADORES a gente que mourejavam o seu labor diário e por vezes, como vi em alunos das escolas de S. Francisco e da Reboleira, sem um pequena almoço no estômago, e desmaiando nas ruas.. (sim, assisti a isto, L.. onde estás tu, hoje?). Aos autóctones juntavam-se já muitos habitantes dos seus subúrbios, alguns deles "expulsos" ou auto excluídos, da cidade na sua própria geração; mas que ainda procuravam para trabalhar, visitar familiares, amigos…

Depois veio o fim, e comércio tradicional esvaiu-se, ferido de morte, pelas lanças que sucessivas más políticas, porque desequilibradas, ditaram. Renasceu agora feito outra coisa. Uma coisa em forma de assim, como diria Alexandre O'Neill. Suprema ironia que nos deveria levar às lágrimas de tristeza: nunca o Porto teve tanta gente na rua, mas nunca o seu caráter se viu tão vazio. Lojas incaracterísticas e (quase) todas a vender a mesma porcaria, ruas completamente artificializadas, música anglo-saxónica berrada no meio das ruas pedonais, granito estrangeiro, feio e anacrónico, que cedo ficou porco com tudo o que cai ou deitam no chão. Enfim, uma cidade igual a tantas e tantas outras da Europa, mudando apenas o cenário, para que a selfie, só ela, registo o local onde o turista da escapadinha de três dias saiba, daqui a 10 anos, onde passou (porque ele nunca na verdade Esteve).

Todos os dias é uma passar constante da mesma coisa, turismos e turismo, mesmo na chamada época baixa, são aos magotes os que vêm em pacotes baratos; para logo logo seguirem para outra cidade qualquer da Europa Low Cost (para eles, note-se). O que registam da cidade? Pouco, muito pouco ou quase nada. Ficará a imagem fugida de um cenário de um Harry Potter e do embarque, ao fim da tarde, no terminal de cruzeiros, onde quase se perdia o barco, porque algum acidente engalinhou o trânsito.

E depois há os que, sendo de cá, criticam quem pense como eu, como se fossemos os velhos do Restelo... Saudosistas da pobreza, do "no meu tempo é que era bom". Não senhores, não se pretende rejeitar o despotismo sorridente e hipócrita de hoje para voltar ao despotismo do antigamente. E esta contra argumentação vossa, que na verdade não o é pois não recorre a cogitação, demonstra antes cumplicidade com o vigente, onde não se pensa ou não se quer ter outra coisa. Não conseguem, os políticos locais, conceber um plano a médio prazo para o futuro da cidade e da sua sustentabilidade, tendo dado rédea solta à sua betonização, gentrificação e descaracterização; mantendo-a refém do parque temático em que foi transformada; um não lugar que até agora não existia nos estudos, mas que bem pode agora medir forças com os aeroportos e os centros comerciais, réis dos não lugares.

Nada dura para sempre, a a cidade lindinha e liofilizada irá acabar por desaparecer, da mesma forma como tantas outras vezes, à custa das pessoas infelizmente... Nesse dia já cá não devo estar, mas que ele virá, virá. Deixará ela saudades aos saudosistas?

Viriato

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