As réplicas do Museu do Carro Elétrico
Caro leitor, confesso que o título original para esta publicação era Réplicas a brilhar e originais a ganhar pó. Mas como não quero que ela passe por uma crítica ao estilo "bota abaixo", porque efetivamente não o é, achei por bem substituí-lo. É que o Museu do Carro Elétrico do Porto é sem favor um excelente museu e mais importante, um museu vivo, dado que todos os anos em Maio convida-nos a viajar em algumas das suas unidades.
Hoje confinado ao turismo, o carismático carro elétrico foi durante 100 anos[1] um meio de transporte ativo na cidade, gradualmente perdendo a sua importância a partir de 1957 com a extinção das linhas que se dirigiam a Vila Nova de Gaia. Durante todo esse tempo fizeram parte da paisagem urbana portuense, diretamente do dia-a-dia de todos aqueles que os usava e indiretamente dos que não o faziam, com a presença constante e o seu passar ronceiro pelas ruas.
A história da sua frota é apaixonante mas complexa, pois os registos são muitas vezes imprecisos ou mesmo inexistentes. Para além disso, muitos veículos passaram por transformações de certa monta e as sucessivas renumerações por vezes quase que parecendo casuais, não ajudam a quem se interessa pela seu passado. Segundo o The Tramways of Portugal de 1995 os primeiros CE foram fornecidos pela Siemens (que representava na Europa a americana Walker Eletric Company) e começaram a operar em 12 de setembro de 1895 entre o Carmo e o Ouro (via rua da Restauração), naquele que foi o primeiro troço eletrificado da Península Ibérica[2]. Estes veículos, apenas 3 unidades, é de crer terem perecido no fogo de 1928 na remise da Boavista. A mais conhecida memória que deles ficou é um célebre postal da praça da Batalha que mostra um desses carros a circular, mas outros há (ver i1).
Apesar de todo o esforço consequente da feliz ideia de levar avante o projeto da existência de um Museu do Carro Elétrico e apesar de este museu, uma realidade há já várias décadas, ter a sua coleção maioritariamente constituída por veículos originais, não foi possível apresentar um exemplar de cada tipo que circulou na nossa cidade. Assim, no meio deles surgem-nos duas réplicas de veículos cujos seus representantes não chegaram ao nosso tempo. E num contraste a meu ver pouco lógico, encontram-se ainda em depósito alguns CE há muito reservados para museu, esses sim, peças originais.
Quem visitar o museu ficará certamente maravilhado com o CE 104 e com o seu aspeto nitidamente oitocentista (um cunho talvez impresso pelo facto de ser de construção inglesa). E mais ficará se nele entrar e for absorvido pela sensação de sermos transportados para uma outra época. Mas o que a maioria das pessoas ignora é que, neste caso, foi necessário recorrer a uma réplica para termos um representante daquele modelo. Na verdade, o 104 original foi destruído em 1959 após ter funcionado no final da sua carreira como carro de instrução (ver i2)[3]. A bonita réplica que dele se fez é fruto do esforço notável de, entre outros, o Sr. Rocha que eu ainda tive a felicidade de conhecer!
Perdoar-me-á a memória do Sr. Rocha, mas do CE 100 não posso dizer o mesmo. É verdade que o carro elétrico aberto no Porto foi uma experiência que não frutificou e destes veículos apenas se construiram 2 em 1904[4]. Inicialmente numerados 41 e 42, em 1907 passaram a ser o 141 e o 142 e em 1924, o 100 e o 115 (segundo Ernst Kers). Os historiadores deste sistema de transporte na nossa cidade apontam, como causa provável para o seu desaparecimento o incêndio na Remise da Boavista, em 1928. É bastante possível. Certo é que carro que figura no museu com o nr. 100 é uma réplica. Mas contrariamente ao 104 trata-se de uma réplica a uma escala maior do que o original(!), o que se pode de certa forma desculpar pela total ausência de planos e quase de imagens destas veículos (quem procurar ver os dois veículos-réplica que referi acima, poderá fazê- lo aqui).
Importa referir que para que estas réplicas fossem construídas, tornou-se necessário destruir duas carroçarias. O primeiro carro a ser desmantelado foi o CE 129, que cedeu o seu chassis e longarinas(?) para servir de base à réplica do CE 100. O segundo foi o CE 169, cujo chassis foi usado na réplica do CE 104. Ambos muito raros no mundo (sim, no mundo!) por se tratarem de dois Brill originais fabricados nos EUA e que foram desta forma mais ou menos inglória sacrificados.
Para além destes veículos o Museu do Carro Elétrico conta com várias outras unidades bem restauradas e funcionais, que nos permitem ter uma ideia do evoluir deste meio de transporte na cidade e o caminho para o seu ocaso. E ainda outros, como o caso do CE 177, que está reservado para o museu há décadas e décadas e parece que não há meio de o restaurar e lá colocar! Em que estado estará ele agora...
Viriato
ӽӽӽ
1. 12 de setembro de 1895 a 7 de junho de 1996, pelo que não chegou a completar o 101º aniversário! A partir de 12 de junho de 1996 reapareceu mas já num claro serviço diário decrépito ao qual não faltou nunca a falta de respeito dos condutores que estacionavam em cima das linhas, conforme pude muitas vezes testemunhar.
2. Em 1896 foi eletrificado o percurso até ao Infante, num processo que seria contínuo até à extinção do carro americano, em 1904.
3. Outro veículo idêntico a este, embora não motorizado, foi vendido para Inglaterra em 1964, estando preservado no museu de Crich (ver aqui).
4. Em Lisboa havia-os às dezenas!
publicação originária d' A Porta Nobre, de 21.03.2019, agora reposta com ligeiras modificações

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