Sobre o Mercado do Peixe

Em agosto de 1871, numa das suas famosas farpas, Eça de Queirós discorre de forma humorística sobre o recentemente inaugurado Mercado do Peixe no Porto, localizado em área hoje ocupada pelo tribunal central, à Cordoaria (ver aqui). Este mercado, que acabou por durar até ao primeiro lustro da década de cinquenta do século passado, não chegando à centena de anos de existência foi ainda assim um espaço importante para várias gerações do portuenses que durante décadas o utilizou.


Nesta curta publicação quero tão só dar a conhecer um pequeno texto de 1880 que transcrevo diretamente d' O Tripeiro de 1972 (p. 353), da responsabilidade do escritor Sanches de Frias, inclinado a apreciar a beleza feminina que povoava aquele mercado...

o mercado do peixe nos últimos anos da sua existência


« Junto da Cordoario, onde está este mercado [o do Anjo] encontra-se o do peixe, inaugurado em 1874 [1], no sítio dos celeiros públicos de velha data. É um edifício cómodo, elegante, sólido e mesmo pomposo, em quatro pavimentos, bem ornados de portados [sic] e janelas, colunatas e terraços, que deitam para a rua ocidental do Jardim. Apesar da hora adiantada, notava-se ainda um grande abastecimento dos géneros de primeira necessidade e uma correspondente animação entre os frequentadores, que pela diversidade dos trajes e maneiras apresentavam aos olhos do curioso os tipos característicos da gente da cidade e suas vizinhanças, desde a vendedeira de largas ramagens no lenço, cujas pontas vão à copa do chapéu, até à criada de avental rufado em pregas e lenço caído nos ombros, em ar de xaile, como um nó sobre o peito; desde a peixeira de Valadares, Crestuma ou Avintes, com o seu chapéu redondo e de alto bordo, o lenço garrido, cruzado sobre o peito, mangas arregaçadas e saia de grande roda, até à mulher da Maia ou de S. Cosme, com as orelhas e o pescoço a regorgitarem de arrecadas em arco, grossos e pesados trancelins, corações desmedidos, tudo de oiro rendado e finíssimo, e o cabelo muito bem caído sobre os ombros. Havia por ali tal profusão de rostos frescos e bonitos, olhos pretos e rasgados, no meio de todo aquele mulherio, que um lisboeta bairrista, costumado só e unicamente a ver entre o povo, a beleza, já hoje rara, da varina, que brilha ao lado da suja e desgraciosa saloia, como astro seus satélites - ficaria necessariamente despeitado. »


Numa pequena nota relacionada com este mercado; é sabido que o brasão que se encontra na nova Casa da Câmara (Fernando Távora, 2001), é o que outrora ocupava o centro do frontão do edifício do mercado do peixe. O que nem todos sabem é que esse brasão da cidade foi colocado no seu local original a 4 de janeiro de 1871. Segundo O Comércio do Porto do dia seguinte, o brasão era na opinião do articulista, muito bem trabalhado e feito em duas peças: uma que compreende o escudo e o colar da Torre e Espada e a outra a Coroa e o Dragão; dizendo que todos eles, incluíndo a imagem da Virgem, parte das armas da cidade, eram de «apurado trabalho». Mas vai mais longe o artigo, pois graças a ele podemos saber os nomes de quem, pacientemente, cinzelou as rudes pedras de granito até apresentarem o desenho que se vê abaixo: Domingos José da Silva, Joaquim da Silva Loureiro, António Reis, António Ferreira e António Francisco; todos alunos do instituto industrial[2].

O brasão em 2019 na face norte da nova Casa da Câmara


Viriato


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1. Erro por 1871.

2. Que instituto era este?

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