A derrocada na escarpa dos Guindais
Saiba, caro leitor, que nunca procuro publicar propositadamente em datas de acontecimentos marcantes na vida da cidade, por o considerar um puro jogo de números amarrado ao sistema decimal (ver nota final). Ainda assim, a ideia para esta publicação surge, tal como uma outra recente sobre Alves dos Reis e o Porto, perto da data de aniversário do acontecimento a relatar. Só e apenas isso deu lugar a que a arrastasse até ao dia 27 de janeiro...
Ora, no dia 27 de janeiro de 1879, deu-se um trágico acontecimento que permaneceu na memória dos vivos durante algum tempo. Com efeito, pelas 15 horas desse dia, desabou parte da escarpa dos Guindais, junto ao terreno que mais tarde iria receber os elevadores com o mesmo nome (o antigo e o moderno). Mas em 1879, aquele cantinho da cidade que já não é, stricto sensu, centro histórico, encontrava-se ocupado por casas e seus quintais (foram três os edifícios destruídos).
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assinalado com o retângulo encontra-se o local onde se deu a derrocada
A descrição do sinistro que aqui parcialmente transcrevo, foi publicada na revista O Ocidente de 15 de fevereiro de 1879: «A grande rocha, que em parte constituía a base da montanha, estava fundida e sobre esta assentava uma pequena casa que se andava demolindo, por já se prever o desastre que infelizmente se realizou. Parte da rua dos Guindais, marginal do Douro, o muro de vedação, as linguetas inferiores e a casa em frente tudo desapareceu debaixo da derrocada, constituída por calhaus enormes, alguns dos quais, rolando até ao rio, meteram ainda a pique um barco, salvando-se milagrosamente a tripulação.
Segundo as melhores suposições que ainda até hoje se não puderam verificar por não estar concluída a remoção dos entulhos, o número de vítimas deve ser de quatro ou cinco, e de mais seria se a municipalidade não tivesse, prevendo a catástrofe, obrigado os inquilinos dos prédios soterrados a abandonarem a tempo das habitações. As primeiras versões da catástrofe eram pavorosas, fazendo-se subir o número de vítimas a sessenta. O que é certo é que, à última hora, antes do sinistro, a polícia salvou a vida a alguns moradores, obrigando-os à força a sair dos prédios que daí a pouco ficaram completamente aniquilados.
gravura publicada n' O Ocidente, da autoria J. J. Pinto (desenhado do natural)
Quando os rochedos se amalgamaram sobre os prédios, levantou-se uma intensa nuvem de poeira que, por um momento, embranqueceu a atmosfera. (...) Alguns instantes depois das casas da rua dos Guindais ficarem esmagadas sob o peso dos enormes pedregulhos despedidos do alto da montanha, começaram a sair das ruínas grandes línguas de fogo, pois que em algumas das casas habitadas havia lume nas chaminés, comunicando-se este aos destroços de madeira. Era extremamente medonho o aspeto que apresentava aquela grande massa informe e traves e penedos iluminados sinistramente pelos clarões que saiam de entre as ruínas, refletindo-se nitidamente nas águas do Douro, e deixando ver a imensa multidão que se acumulava nos barcos e nas margens fronteiras até à ponte pênsil.»
a escarpa dos Guindais após a derrocada
No relatório da Câmara Municipal, referente ao biénio 1878-79, surge este parágrafo, pela pena do seu presidente: «na lembrança de todos está decerto ainda o rigoroso e calamitoso inverno de 1878 a 1879, que durou quatro meses consecutivos, durante os quais se fizeram muitas intimações a vários proprietários, obrigando uns a fazer simples reparos nas suas propriedades, e a outros a demoli-las completamente, tendo a câmara de mandar pelos seus operários fazer alguns apeamentos, e ainda assim não deixou a cidade de ter de lamentar algumas desgraças, de que houveram vítimas, como foi no desabamento de Salgueiros, e no grande desastre dos Guindais, que sucedeu no dia 28 de janeiro de 1879(1).
Foi um horrível desmoronamento, que sepultou na sua queda três grandes prédios, dos quais nem sinais viram os milhares de pessoas que afluíram ao local, ficando dolorosamente impressionadas ao contemplar os vestígios daquela grande catástrofe, que podia ter feito algumas centenas de vítimas e que decerto faria, se não fossem as diligências empregadas pelas autoridades, e principalmente por parte da câmara, para fazer afastar daqueles sítios os moradores e transeuntes, sendo devido aos esforços empregados o ter-se então de lamentar apenas um número muito limitado de vítimas».
Também num relatório camarário, desta feita de 1891, se pode ler: «Durante o segundo trimestre de 1891 a câmara resolveu reconstruir o paredão das Fontainhas e desobstruir o trânsito pela rua dos Guindais, para isso intimando os proprietários dos prédios que desabaram». Reminiscências de 1879? Haviam passado 12 anos...
Viriato
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1. Lapso, certamente.
Nota final: esta publicação foi originalmente colocada a 27 de janeiro de 2021, n' A Porta Nobre





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